“Pobre de direita”: desprezo de classe ameaça o diálogo eleitoral

Isso nem esquerda é. É o apodrecimento de um progressismo já fraco.

Faltam dez dias para o segundo turno das eleições presidenciais. Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. São mais de 56 milhões de votos para o candidato da extrema direita, uma diferença superior a dois milhões de votos em relação ao atual presidente. Diante desse resultado, é necessário entender o que aconteceu, analisar as condições concretas que levaram milhões de brasileiros a fazer essa escolha e investigar os problemas que a esquerda enfrenta em sua relação com a classe trabalhadora.

Mas encontramos setores da esquerda brasileira fazendo justamente o contrário. Em vez de investigar as razões de suas dificuldades políticas, preferem insultar trabalhadores que votam na direita. Chamam-nos de burros, ignorantes, ressentidos e incapazes de compreender os próprios interesses. Como se a condição de trabalhador impusesse a obrigação de votar na esquerda e como se humilhar quem pensa diferente pudesse produzir algum resultado político positivo.

Há uma arrogância nesse comportamento que se apresenta como preocupação com os trabalhadores, mas que rapidamente se transforma em desprezo quando eles fazem escolhas políticas diferentes daquelas que determinados setores da esquerda esperam.

Parte desse comportamento encontra respaldo na popularização da tese do “pobre de direita”, desenvolvida pelo sociólogo Jessé Souza. Sua interpretação procura explicar a adesão de parcelas das classes populares à direita por meio da humilhação social, do ressentimento, do racismo e da busca por reconhecimento.

Consideramos equivocado o peso dado a essas questões, deixando em segundo plano as condições materiais de existência, a experiência concreta dos trabalhadores com os governos e a responsabilidade das organizações políticas.

A tese de Jessé é um evidente desprezo pelos pobres. Sua interpretação, quando transformada em explicação generalizada para o comportamento eleitoral, pode oferecer uma justificativa intelectual para uma postura profundamente aporofóbica: a de tratar a escolha política do trabalhador pobre como expressão de uma deficiência moral.

Chama atenção que o eleitor rico de direita seja visto como alguém que defende seus interesses econômicos, enquanto o trabalhador pobre que faz a mesma escolha frequentemente seja tratado como ignorante ou manipulado. Ao primeiro, reconhecem-se interesses. Ao segundo, atribuem-se deficiências. Partimos de um princípio elementar do marxismo: a condição de classe não produz automaticamente consciência de classe. O trabalhador não nasce socialista porque é explorado. Tampouco nasce de esquerda porque recebe um salário baixo, depende do SUS ou utiliza serviços públicos.

A consciência política é construída historicamente, nas relações sociais, nas experiências de exploração, na organização coletiva e na luta de classes. Ela também é disputada permanentemente pelas instituições religiosas, pela imprensa, pelos partidos, pelos sindicatos e pelas organizações que atuam na sociedade.

Quando um trabalhador vota na direita ou na extrema direita, precisamos entender as condições que levaram a essa escolha. Não podemos simplesmente presumir que ele foi enganado, que procura compensar alguma humilhação ou que é incapaz de reconhecer os próprios interesses. Esse trabalhador pode ter convicções conservadoras. Também é possível que esteja insatisfeito com experiências anteriores de governos de esquerda, que identifique interesses econômicos específicos em determinadas propostas ou que tenha sido politicamente formado por organizações de direita — partidárias ou não.

Uma publicação no X atribuída a Jean Wyllys, que circula nas redes sociais, exemplifica o tipo de comportamento que estamos criticando. Nela, o ex-BBB relata ter humilhado uma mulher que faz hemodiálise pelo SUS porque ela declarou apoio a Bolsonaro. A mensagem usa a possibilidade de perda do atendimento de saúde para atacá-la. Precisamos perguntar: o que se espera conquistar com isso? Ninguém é obrigado a concordar com as escolhas políticas dessa mulher. É possível criticá-las duramente, demonstrar suas contradições e discutir as consequências das políticas defendidas por seus candidatos. Mas transformar sua condição de saúde e sua dependência de um serviço público em instrumentos de humilhação mostra um desprezo incompatível com qualquer compromisso sério com a emancipação dos trabalhadores. A defesa dos direitos sociais não pode depender de uma declaração de fidelidade ideológica.

Há algo especialmente perverso quando esse desprezo parte de pessoas protegidas das consequências materiais das disputas políticas. Para quem tem renda, patrimônio e acesso a serviços privados, uma mudança de governo gera apenas uma divergência política. Para quem depende exclusivamente dos serviços públicos, pode significar uma transformação brutal nas próprias condições de sobrevivência. Nem todos possuem as condições para reconstruir a vida na Europa.

Que tipo de esquerda considera uma boa tática humilhar alguém que diz representar? Na reta final de uma eleição presidencial tão disputada, torna-se também um grave problema político.

Existem eleitores convictos, insatisfeitos, indecisos e pessoas que, embora tenham escolhido um candidato, ainda podem reconsiderar sua decisão. Que possibilidade de diálogo existe com essas pessoas quando são resumidas a “pobres de direita”? Por que alguém deveria reconsiderar suas escolhas depois de ser publicamente humilhado por quem pretende convencê-lo?

Agindo assim, esses setores podem receber aplausos de quem já concorda com eles, mas dificilmente conseguirão dialogar com quem discorda. Pior: oferecem aos adversários mais um elemento para reforçar a percepção de que determinados segmentos da esquerda desprezam os trabalhadores, suas crenças e seus modos de vida.

É muito confortável responsabilizar o trabalhador por votar na direita sem examinar as decisões tomadas pelos partidos e governos que reivindicam a representação da esquerda. É conveniente discutir a influência das igrejas sem perguntar por que tantas organizações políticas de esquerda perderam presença nos territórios. É simples atribuir as dificuldades eleitorais à desinformação, ao ressentimento ou à alienação sem reconhecer o enfraquecimento dos sindicatos, o abandono do trabalho de base, a burocratização das organizações populares e os limites das políticas econômicas adotadas pelos governos petistas.

Essa investigação exige autocrítica dos partidos e das organizações de esquerda. E a autocrítica costuma ser muito mais desconfortável do que encontrar defeitos morais no eleitor.

A experiência material dos trabalhadores não se resume aos indicadores econômicos agregados (Maria da Conceição Tavares resumiu muito bem dizendo que “ninguém come PIB”). Envolve o salário que recebem, as jornadas que enfrentam, as condições de moradia, os serviços públicos que utilizam e a distância entre as promessas eleitorais e aquilo que efetivamente muda em suas vidas.

Não defendemos que os trabalhadores estejam acima de qualquer crítica. Não acreditamos que a pobreza torne alguém moralmente superior, incapaz de cometer erros ou imune à influência de ideias autoritárias. Origem, cor e gênero, por si só, não dão caráter para ninguém. Mas precisamos distinguir a crítica política do desprezo de classe. Esse desprezo dá uma enorme sensação de superioridade moral sem produzir qualquer resultado político concreto.

A classe trabalhadora não existe para confirmar convicções políticas. Os partidos e as organizações que afirmam representar seus interesses precisam demonstrar, na prática, sua capacidade de organizar lutas e produzir transformações concretas nas condições de vida da população.

Após o segundo turno, independentemente de Lula vencer ou perder, a esquerda brasileira terá inúmeras tarefas pela frente. Será necessário avaliar os resultados eleitorais, compreender as transformações da sociedade brasileira, reconstruir organizações populares, ampliar a presença nos territórios e enfrentar as contradições econômicas e políticas relacionadas ao crescimento da extrema direita. Entre essas e outras tarefas, consideramos indispensável combater a concepção do chamado “pobre de direita”, até que ela deixe de integrar o vocabulário da esquerda.

Não se trata de impedir o debate acadêmico ou negar a importância de estudar os mecanismos de dominação simbólica. O racismo, a religião, o reconhecimento social e as experiências de humilhação são elementos reais da formação da consciência política. Entretanto, nenhum deles pode ser transformado em uma explicação universal para o comportamento das classes populares, muito menos servir de justificativa para o desprezo aos trabalhadores. Sobretudo, precisamos abandonar a pretensão de que os trabalhadores devem seus votos a qualquer campo político.

Faltam dez dias para o segundo turno. Esse período é importante demais para que o debate político seja substituído por demonstrações de superioridade moral e desprezo contra trabalhadores que pensam de maneira diferente.

E, quando as urnas forem fechadas, permanecerá um problema que nenhum resultado eleitoral, por si só, será capaz de resolver: a existência de setores da esquerda que afirmam lutar pela emancipação dos trabalhadores, mas que ainda precisam aprender a respeitá-los. Isso nem esquerda é. É o apodrecimento de um progressismo já fraco.

Foto de Rodolpho Dalmo

Rodolpho Dalmo

é estrategista político com 12 anos de experiência em política, eleições e governos.

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