Depois das urnas: o que acertamos e o que erramos nos nossos palpites

No resultado político geral, nossa leitura foi boa.

No domingo de eleição, publicamos nossos palpites para as três disputas que acompanhamos mais de perto: Presidência, Governo e Senado de Minas Gerais.

Não quisemos fazer apenas uma lista de vencedores. Publicamos também os números do nosso agregador, com projeção de votos válidos, piso e teto para cada candidatura. Agora, com as urnas apuradas, é hora de fazer o caminho contrário: comparar o que esperávamos com o que efetivamente aconteceu.

No resultado político geral, nossa leitura foi boa. Nos números, há acertos importantes, mas também erros que precisam ser reconhecidos e utilizados para melhorar o método.

Presidência: acertamos a disputa, não a ordem de chegada

Nosso agregador terminou o primeiro turno com Lula em 44,25% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro em 42,71%.

Mas escrevemos que não considerávamos possível cravar qual dos dois terminaria na frente. Os intervalos se sobrepunham e as pesquisas apontavam uma eleição suficientemente apertada para admitir as duas possibilidades. Foi o que aconteceu.

Flávio terminou em primeiro, com 47,03%, e Lula em segundo, com 45,16%. Os dois disputarão o segundo turno. Portanto, acertamos aquilo que considerávamos mais importante na leitura política: Lula e Flávio estariam no segundo turno e a liderança do primeiro turno estava aberta.

Mas o ponto central do agregador errou a ordem. Lula ficou 0,91 ponto acima da nossa projeção e permaneceu dentro do intervalo que havíamos estabelecido, entre 42,33% e 46,18%.

Flávio foi o principal desvio. Projetávamos 42,71%, com teto de 44,63%, e terminou com 47,03%. Ou seja: ficou 4,32 pontos acima da projeção e 2,40 pontos acima até do nosso teto. A leitura da disputa estava correta. A intensidade do voto em Flávio não.

Governo de Minas: nosso palpite mais seguro se confirmou

Na eleição para governador, fomos bem menos cautelosos. Escrevemos que achávamos muito difícil Cleitinho não vencer no primeiro turno. Nosso agregador colocava Cleitinho com 49,44% dos votos válidos, praticamente sobre a linha necessária para resolver a eleição no domingo. O piso era de 47,08% e o teto de 51,81%. Cleitinho terminou com 55,40% e foi eleito governador no primeiro turno. Patrus Ananias ficou em segundo, com 26,34%.

Politicamente, foi nosso melhor palpite. Numericamente, porém, o resultado também deixou uma lição. Cleitinho ficou 5,96 pontos acima da nossa projeção e 3,59 pontos acima até do teto calculado. Patrus também veio acima do nosso número: projetávamos 22,91% e ele terminou com 26,34%.

O movimento inverso aconteceu principalmente com Alexandre Kalil. Nosso agregado lhe dava 9,39%, mas ele terminou com apenas 3,54%. Isso mostra uma concentração de voto nos dois primeiros candidatos muito maior do que aquela indicada pelo agregado. Acertamos ao olhar para os números e concluir que a tendência concreta era de vitória no primeiro turno. Mas o modelo subestimou a magnitude dessa concentração.

Aqui há uma diferença importante entre projeção estatística e julgamento político. O número estava muito próximo dos 50%; nossa leitura foi de que a dinâmica final empurraria Cleitinho para cima dessa linha. Foi exatamente o que ocorreu.

Senado: os vencedores estavam no grupo, mas o agregado errou bastante a distribuição

O Senado era a eleição que considerávamos mais aberta em Minas. Nosso agregador terminou com Marília Campos em 20,12%, Carlos Viana em 18,35%, Aécio Neves em 16,98% e Domingos Sávio em 16,46%.

Diante da proximidade entre eles, escrevemos que não considerávamos responsável escolher dois nomes como favoritos absolutos. Nosso palpite foi de que as duas vagas sairiam desse grupo de quatro. Saíram.

Domingos Sávio foi eleito em primeiro, com 24,21%, e Marília Campos em segundo, com 19,44%. Carlos Viana terminou logo depois, com 17,46%. Então existe um acerto político: os dois senadores eleitos estavam entre os quatro nomes que apontávamos como efetivamente competitivos. Mas seria errado transformar isso em um grande acerto do agregador.

No Senado ocorreu justamente o maior problema numérico. Marília ficou muito perto da nossa estimativa: 20,12% projetados contra 19,44% nas urnas. Viana também: 18,35% contra 17,46%. Já Domingos Sávio saltou dos 16,46% projetados para 24,21%. E Aécio fez o movimento oposto de maneira ainda mais brutal: projetávamos 16,98%, com piso de 14,33%, mas ele terminou com apenas 4,08%, em sétimo lugar. Também houve desempenhos muito superiores às projeções entre outros candidatos: Áurea Carolina chegou a 12,98%, Marcelo Aro a 11,63% e Marco Antônio Superman a 9,24%.

Portanto, o agregado conseguiu identificar corretamente o ambiente de incerteza, mas não captou a redistribuição final dos votos. A queda de Aécio e o crescimento de Domingos Sávio são grandes demais para serem tratados simplesmente como variações normais dentro de uma margem de erro.

A partir dessa eleição, também tomamos uma decisão metodológica: não faremos mais o agregador para o Senado. A disputa por esse cargo tem uma dinâmica muito mais difícil de capturar, especialmente porque, quando há duas vagas em disputa, cada eleitor pode votar em dois candidatos e uma parcela muito grande dessas escolhas só se consolida nos últimos dias. Em Minas, por exemplo, a Quaest divulgada em 29 de setembro mostrava que 76% dos eleitores ainda não conseguiam citar espontaneamente um candidato ao Senado, e 33% diziam que ainda poderiam mudar o voto. Esse grau de indefinição ajuda a explicar movimentos muito fortes na reta final e torna pouco confiável transformar pesquisas desse tipo em uma projeção agregada de votação. Continuaremos acompanhando e analisando as pesquisas para o Senado, mas sem produzir uma estimativa própria de votos válidos, piso e teto.

O que consideramos que acertamos

Nos três casos, nossa leitura política central se sustentou.

Na Presidência, dissemos que Lula e Flávio Bolsonaro iriam ao segundo turno e que não havia segurança para dizer qual deles terminaria na frente.

No Governo de Minas, fomos além dos números do agregado e apostamos que Cleitinho venceria no primeiro turno.

No Senado, identificamos quatro candidatos que poderiam ocupar as duas vagas, e os dois eleitos estavam nesse grupo.

Portanto, saímos satisfeitos com a capacidade de transformar os dados disponíveis em leitura política. Mas não igualmente satisfeitos com todas as projeções numéricas.

Foto de Rodolpho Dalmo

Rodolpho Dalmo

é estrategista político com 12 anos de experiência em política, eleições e governos.

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