No dia 30 de julho de 2025, Trump assinou um decreto que impôs tarifas de 50% para vários produtos do Brasil. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, dos Estados Unidos, disse que “trabalhou diretamente” no caso1.
Os efeitos no Brasil não foram os esperados pela direita. Rapidamente, o governo e o PT reforçaram o discurso “o Brasil é dos brasileiros” e conseguiram adesão popular à pauta.
O histórico das pesquisas do ano passado mostra isso com clareza: quando a soberania entrou em pauta, Lula cresceu e a rejeição caiu. Quando saiu, Lula voltou a oscilar negativamente.
Soberania foi a maior aliada do governo
Na Paraná Pesquisas2, a soma de ótimo e bom de Lula, que em junho de 2025 era de 25,6%, chegou a 35,3% em outubro. A aprovação no mesmo período subiu de 39,8% para 47,9% e a desaprovação caiu de 56,7% para 49,2%.
Na Quaest3, a aprovação saiu de 43% em julho para 48% em outubro, e a desaprovação caiu de 53% para 49%. Na Datafolha4, entre junho e dezembro, a aprovação do governo saltou de 46% para 49% e a desaprovação caiu de 50% para 48%5.
Antes mesmo do tarifaço entrar em vigor, 72% dos brasileiros diziam que Trump estava errado e 79% achavam que as tarifas prejudicariam suas vidas. Após o episódio, 75% dos brasileiros viam as ações de Trump como uma questão meramente política6. A imagem dos EUA piorou para 38% e 64% dos brasileiros diziam que Lula estava certo em defender a soberania do Brasil frente aos EUA — inclusive com apoio relevante fora da base petista7.
Os dados são consistentes: a soberania nacional organizou a opinião pública e gerou ganho político para o governo.
Soberania como eixo de 2026
Nas últimas pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com Lula e, em alguns cenários, lidera o segundo turno8. Com rejeições elevadas, o espaço de crescimento é limitado — o que torna ainda mais decisivo o eixo de disputa.
Quando o nome de Flávio foi confirmado, o Planalto comemorou9, por considerá-lo mais fraco que o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas. Agora com a ascensão do “01”, o governo estuda como atacá-lo e aumentar sua rejeição. No último dia 28, na CPAC10, Flávio Bolsonaro deu de bandeja à equipe do Presidente Lula um indicativo do caminho a seguir: SOBERANIA NACIONAL.
Em seu discurso11, Flávio Bolsonaro defendeu que o Brasil é “a solução para os EUA quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”. O senador ainda sinalizou seu apoio à classificação de facções brasileiras como terroristas, o que abriria margem para ações militares dos EUA em território brasileiro.
Ao se colocar como fornecedor estratégico dos EUA, Flávio Bolsonaro explicita um projeto de inserção subordinada do Brasil.
Dias depois do encontro, um relatório do governo Trump12 afirmou que o Pix cria “desvantagem” para empresas norte-americanas, como Visa e Mastercard, e não descartou novas sanções contra o Brasil13. A pressão externa voltou — e, com ela, a soberania nacional retorna ao centro do debate, com o mesmo peso que teve em 2025.
O erro de 2025: soberania como meme
Em fevereiro de 2025, iniciou-se a “guerra dos bonés”. A direita usava o slogan “comida barata novamente”, e o Planalto respondeu com “o Brasil é dos brasileiros”.
A resposta teve adesão momentânea, mas não se sustentou14. O problema foi estratégico: os governistas optaram por uma frase vazia, sem vínculo com um projeto concreto de soberania. A comunicação política não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta a serviço de projetos políticos sólidos. Sem base material, a retórica foi engolida pela realidade e Lula voltou a oscilar negativamente nas pesquisas.
A direita, após o baque inicial, se reorganizou, redesenhou suas táticas e segue competitiva. Mais do que isso: tende a contar com o apoio político e estratégico dos Estados Unidos, que declararam em fevereiro o continente americano como área prioritária de disputa15.
A última chance
Em discurso recente, Lula respondeu aos ataques ao Pix16, mas, se quiser sangrar o bolsonarismo, precisa ir muito além da retórica.
É preciso um projeto concreto que envolva: (1) controle de recursos estratégicos; (2) reindustrialização; (3) fortalecimento do sistema financeiro nacional com o Pix; (4) revisão de acordos militares sensíveis; e (5) uma agenda energética soberana. Com base material, a comunicação deixa de ser esforço e passa a ser consequência direta.
Essa eleição terá apenas Lula como candidato (relevante) de esquerda. Lula será alvo de uma ofensiva concentrada, enfrentando cinco ou seis candidaturas adversárias17. Mantido tudo constante, a tendência é que Flávio Bolsonaro aglutine esses apoios e chegue como favorito no 2º turno.
Se quiser virar o jogo, o governo precisa recorrer ao bom e velho “nós contra eles”, e colocar no centro do debate público uma única questão: ou os brasileiros decidem seu próprio destino, ou alguém decidirá por nós.
Notas de rodapé
- https://cbn.globo.com/politica/noticia/2025/07/30/eduardo-bolsonaro-diz-que-trabalhou-diretamente-nas-ultimas-semanas-para-medidas-do-tarifaco.ghtml ↩︎
- https://paranapesquisas.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Nacional_Mar26.pdf ↩︎
- https://quaest.com.br/wp-content/uploads/2026/03/GENIALQUAESTNACMAR261.pdf ↩︎
- https://media.folha.uol.com.br/datafolha/2026/03/09/2chf4c4ommsnsmppkvpr1btj0f8bvtwq-r99w7afdda.pdf ↩︎
- Esses números também tiveram influência das campanhas “congresso inimigo do povo” e contra a “PEC da bandidagem”, com grandes atos de rua, mostrando como a mobilização popular era a única arma contra a correlação de forças. Assunto que não aprofundaremos neste texto pois não interfere diretamente na disputa “mano a mano” de Lula com Flávio Bolsonaro, objetivo desta reflexão. ↩︎
- https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/iuri-pitta/politica/para-75-dos-brasileiros-trump-aplica-tarifaco-por-politica-diz-pesquisa/ ↩︎
- https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/09/17/quaest-lula-soberania-estados-unidos.ghtml ↩︎
- https://www.cartacapital.com.br/politica/os-novos-numeros-do-instituto-parana-pesquisas-para-a-eleicao-presidencial/ ↩︎
- https://g1.globo.com/politica/blog/gerson-camarotti/post/2025/12/05/planalto-tem-discreta-comemoracao-com-pre-candidatura-de-flavio-movimento-reforca-nome-de-tarcisio-para-o-bandeirantes.ghtml ↩︎
- Conservative Political Action Conference (Conferência da Ação Política Conservadora) ↩︎
- https://www.cnnbrasil.com.br/politica/flavio-diz-que-brasil-e-solucao-para-eua-ter-minerais-de-terras-raras/ ↩︎
- https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/casa-branca-ataca-brasil-por-pix-regulacao-de-redes-e-taxa-das-blusinhas/ ↩︎
- https://x.com/reporterenato/status/2039458367136027101 ↩︎
- Em texto publicado na época, dissemos que a peça foi apresentada como uma resposta ao “patriotismo” da extrema direita, mas acabou evidenciando a total falta de estratégia política. Citamos que o governo optou por uma frase vazia, sem vínculo com um projeto concreto de soberania. Estávamos certos, pois os efeitos práticos não passaram das mídias sociais, como demonstram o histórico das pesquisas já citadas. Leia o texto aqui: https://blog.rodolphodalmo.com/marketeiros-politicos-e-a-politica/ ↩︎
- https://blog.rodolphodalmo.com/quem-erra-na-analise-erra-na-acao-reflexoes-sobre-as-eleicoes-de-2026/ ↩︎
- https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/04/02/ninguem-vai-fazer-a-gente-mudar-o-pix-diz-lula-ao-comentar-relatorio-dos-eua-com-criticas-a-ferramenta.ghtml ↩︎
- Até o momento: (1) Flávio Bolsonaro (PL), (2) Aldo Rebelo (DC), (3) Ronaldo Caiado (PSD), (4) Renan Santos (MISSÃO) e (5) Romeu Zema (NOVO) ↩︎
Revisado e atualizado em 05/10/2026