Temos visto circulando algumas leituras sobre a eleição presidencial deste ano que consideramos equivocadas do ponto de vista operacional, e que quando viram premissa de campanha, viram também erro de estratégia. Em geral, elas aparecem como três premissas: (1) que a máquina federal “não pesa”, (2) que Lula entra com a vitória encaminhada (até em 1º turno) e (3) que tanto o bolsonarismo quanto os EUA seriam fatores secundários na disputa de 2026.
Oposição
Temos visto notícias, artigos e análises de que o sonho de um quarto mandato de Lula pode não se cumprir, que Lula não deveria concorrer, etc. O óbvio parece ter sido ignorado: o PT tem a máquina federal nas mãos. E máquina é estrutura, capilaridade, possibilidade de operar políticas públicas, base municipal, articulação de coalizão, agenda diária que ocupa o debate etc. Quem tem governo tem instrumentos para organizar apoio, reduzir dispersão e criar coordenação territorial.
Dá pra ver a força da máquina na prática em três eleições em nossa história. Primeiro a mais recente, de 2022, quando Bolsonaro — que vinha de um governo mal avaliado durante todo o ano — abriu os cofres (redução de impostos sobre combustíveis, Auxílio Brasil de R$ 600, Vale Gás ampliado, benefício para taxistas e caminhoneiros etc.) e perdeu por menos de 2%. Em 2006, nem o Mensalão foi capaz de impedir a reeleição de Lula. Em 2010, na primeira eleição sem Lula desde 1989, o Presidente (em seu último ano de mandato) moveu a máquina, aglutinou dez partidos no primeiro turno e elegeu Dilma, até então uma desconhecida do grande público, que assumiu a dianteira nas pesquisas apenas em julho daquele ano.
Apesar do governo estar fazendo uma comunicação ruim1, subestimar a caneta de Presidente é analisar a eleição com as lentes erradas. A eleição presidencial no Brasil ainda é muito orgânica, analógica e sem espaço para voluntarismo. E, novamente, para dizer o óbvio, estamos falando do Lula na disputa, o rei das negociações e das concessões, que vai para a sua 7ª disputa.
Progressismo
Agora, do outro lado, vemos parte do progressismo se embalando na fantasia do “já ganhou”, ideia tão ou mais perigosa quanto o “já perdeu”. Essa crença vem ganhando força desde os erros estratégicos encabeçados por Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, aliados a erros do Congresso, como a PEC da Bandidagem2. Mas o governo interrompeu a queda na aprovação se defendendo, não atacando.
Mais perigosa e fora da realidade, ainda, é a ideia de “vitória no primeiro turno”, uma aposta contra a história. Lula nunca venceu uma eleição no primeiro turno, nem nos melhores cenários de avaliação positiva. Em 2026, é plausível que a disputa siga polarizada e apertada, com sabor de 2022. Falar em vitória no primeiro turno é um convite à perda de foco. Vamos aos números para tirar a discussão do terreno da torcida.
As últimas pesquisas mostram que a liderança de Lula está longe de ser confortável. Vemos isso quando olhamos as pesquisas Genial/Quaest de janeiro3 e fevereiro4. Na última, realizada entre 5 e 9 deste mês, em sete cenários testados, Lula vence em todos, mas, quando olhamos os números em detalhe, eles nos revelam informações interessantes. A maior vantagem do Presidente é de 8 p.p., no cenário 2, com uma margem de erro de 2 p.p. Ou seja, o bolsonarismo entraria na disputa atrás de Lula com uma diferença de entre 6 e 10 p.p. No segundo turno, esse intervalo cai para entre 3 e 7 p.p. (em janeiro eram 5 e 9 p.p.).
Esses números ainda revelam um detalhe cruel para o governo: Lula está muito próximo do teto. Ele é o político mais conhecido do país, o que dificulta quedas bruscas, por um lado, mas também o crescimento, por outro. Os eleitores que rejeitam ou aprovam totalmente Lula tendem a variar pouco no curto prazo, ao contrário da direita, que ainda pode se aglutinar no segundo turno (eleitores de candidaturas menores) e tem espaço para crescer.
Como o campo progressista está concentrado numa única candidatura, o primeiro turno já terá ares de segundo, com alta consolidação e pouco espaço para expansão. Nos cenários comparáveis testados em dezembro e fevereiro — quando Lula aparece disputando basicamente contra Flávio (e nomes menores) — o padrão é consistente: nos três cenários comparáveis (IV, V, VI), Lula tem um teto de 39% e um piso de 37%, enquanto Flávio tem um piso de 23% contra um teto de 32%. Mesmo com margem de erro, o movimento sugere uma assimetria: o bolsonarismo tem mais espaço para aglutinar e ampliar do que o lulismo para crescer.
O erro do progressismo não é achar Flávio um candidato fraco, mas achar que a fragilidade pessoal dele enfraquece o bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro
Flávio, como nome, tem vulnerabilidades evidentes e será muito atacado, principalmente na campanha de rádio e TV. Mas política não é só “currículo”. O eleitor “bolsonarista raiz” já sabe tudo que vai aparecer contra Flávio e dificilmente mudará seu voto — assim como foi com Jair Bolsonaro. Quando as pesquisas mostram Flávio em segundo lugar, isso é sinal de que a direita segue “refém” do sobrenome. Mesmo com Jair Bolsonaro fora da disputa, a sombra dele segue estruturando a oposição e o bolsonarismo talvez seja hoje o “partido” mais organizado do Brasil.
Tem outro ponto importante a ser considerado: Flávio foi lançado pelo pai como ativo de negociação e virou a moeda mais valorizada da oposição. À época, circulou a leitura de que uma anistia entraria no horizonte de barganha. E hoje a pergunta é outra: o que convenceria o nome mais competitivo a recuar? Na elite econômica, Tarcísio segue como aposta recorrente — mas, mantidas as condições, o bolsonarismo tende a ter a palavra final.
Química Lula-Trump
Outro ponto que os progressistas estão desconsiderando é o fato de os EUA voltarem a declarar o continente americano como área prioritária de disputa. A recente “Estratégia de Segurança Nacional”5 dos EUA é explícita ao dizer que vai “reafirmar e fazer cumprir” a Doutrina Monroe (“América para os americanos”) para restaurar a preeminência dos EUA no hemisfério.
Há quem aposte que uma relação Lula–Trump menos conflituosa reduziria pressão externa6. Não somos adeptos dessa ideia: o cenário segue aberto. Além do componente político-eleitoral, existe interesse econômico-estratégico muito objetivo dos EUA no Brasil, em especial na questão das terras raras. Os EUA considerarão como ameaça qualquer país que “colocam em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, incluindo minerais e elementos de terras raras”7.
O Brasil ainda debate o interesse das big techs (com ajuda da máquina estatal estadunidense) em instalar centros de dados no Brasil em busca de mão de obra barata e escala energética. O CEO da Microsoft já fez um discurso desesperado em Davos8, de que as IAs precisam ser úteis para a sociedade. Até o momento, as grandes empresas de IA só estão servindo como elementos de especulação financeira. Sem expansão, podemos presenciar uma bolha9 muito maior que a crise do subprime10. E, por fim, os EUA têm e sempre terão interesse direto no papel de liderança natural que o Brasil exerce na América Latina.
Mesmo que Lula não seja exatamente um líder anti-imperialista, para Washington, vê-lo derrotado nas urnas por um aliado orgânico seria uma vitória estratégica. A eleição da Colômbia tende a funcionar como laboratório do que podemos presenciar por aqui até outubro.
Conclusão
Por fim, não somos adeptos da tese de que a direita irá para o tudo ou nada para conquistar a Presidência. Vencer no executivo federal seria a cereja do bolo, mas o projeto de poder é mais amplo: aumentar a base no legislativo, em especial no Senado, que renovará dois terços das cadeiras. Isso transforma a eleição legislativa num centro de gravidade: é ali que se definem freios, obstruções, CPIs, pauta de costumes, pressão sobre o STF, e a própria governabilidade do próximo mandato.
Se a direita cresce forte no Congresso, mesmo perdendo a Presidência por margem estreita, ela sai maior do que entrou — com agenda, musculatura e capacidade de paralisar o governo e tensionar com os demais poderes. A direita aprendeu que eleição também é disputa ideológica: pautar debate, criar “consciência” no eleitorado, organizar base social e institucional, disputar o senso comum etc. A esquerda, em muitos momentos, age como se só valesse o placar final, e esquece que a correlação de forças (que o governo utiliza para ficar na inércia) do dia seguinte é tão ou mais determinante.
O erro, para qualquer lado, é substituir o diagnóstico por voluntarismo. “Quem erra na análise, erra na ação”, como diria o político italiano Palmiro Togliatti. Ano eleitoral é ano de manter os pés no chão, ler números, se estruturar, antecipar movimento dos adversários e blindar a campanha contra a euforia e o fatalismo.
Notas de rodapé
- Nossos textos sobre a comunicação do governo: <Os erros de comunicação do governo Lula>; <Marketing, propaganda e realidade: o que está sendo e o que poderia ser o governo Lula III>; e <Menos BRICS+ e mais EUA: mais um erro tático do governo Lula>. ↩︎
- Ruas derrubam PEC da direita e discurso da correlação de forças da esquerda: <https://blog.rodolphodalmo.com/ruas-derrubam-pec-da-direita-e-discurso-da-correlacao-de-forcas-da-esquerda/> ↩︎
- Genial/Quaest Eleitoral para Presidente, 21ª Rodada | Janeiro de 2026: <https://quaest.com.br/wp-content/uploads/2026/01/GENIALQUAESTJAN26.pdf> ↩︎
- Genial/Quaest Eleitoral para Presidente, 22ª Rodada | Fevereiro de 2026: <https://quaest.com.br/wp-content/uploads/2026/02/GENIALQUAESTNACFEV26.pdf> ↩︎
- National Security Strategy of the United States of America: <https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf> ↩︎
- Governo muda percepção e prevê postura ‘recatada’ de Trump nas eleições brasileiras: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/08/governo-muda-percepcao-e-preve-postura-recatada-de-trump-nas-eleicoes-brasileiras.ghtml> ↩︎
- National Security Strategy of the United States of America, pág. 21. Tradução nossa. ↩︎
- CEO da Microsoft faz alerta: se IA não for útil, perderá apoio da sociedade: <https://tecnoblog.net/noticias/ceo-da-microsoft-faz-alerta-se-ia-nao-for-util-perdera-apoio-da-sociedade/> ↩︎
- Como a Bolha de IA Impactará a Economia Real: <https://www.youtube.com/watch?v=sZELz-O4wZQ> ↩︎
- A BOLHA DA IA: JOSÉ KOBORI E MIGUEL NICOLELIS – Inteligência Ltda. Podcast #1753: <https://www.youtube.com/watch?v=exQWYd-wPUg> ↩︎
Revisado e atualizado em 02/04/2026