A decisão dos EUA de prorrogar a sobretaxa1 contra o Brasil não tem apenas efeito econômico. Mesmo com impacto prático limitado, a medida mantém viva a ofensiva política de Trump contra o país e empurra a soberania nacional para o centro da disputa eleitoral. Uma péssima notícia para Flávio Bolsonaro.
Aliados de Flávio já falam na possível volta da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes2 até a eleição. Ou seja, o que era tarifa comercial volta a ganhar contorno de intervenção política direta. Eduardo Bolsonaro, Flávio e seu entorno tentam transformar pressão estrangeira contra o Brasil em ativo eleitoral doméstico.
O problema é que Trump não parece tratar seus “aliados” com tanta reverência. Basta olhar o caso de María Corina Machado. A líder oposicionista venezuelana bajulou Trump, ofereceu a ele até o Nobel da Paz, e mesmo assim foi impedida pelo governo americano de retornar à Venezuela3. Trump gosta de bajulação, mas não parece respeitar quem se oferece demais. É aí que Flávio e Eduardo Bolsonaro erram feio.
Os dois fazem de tudo para demonstrar que seriam administradores dóceis de uma colônia, como Milei tenta ser na Argentina. Oferecem alinhamento automático, recursos estratégicos, PIX, terras raras, soberania jurídica e política externa. Querem provar a Washington que, com eles, o Brasil deixaria de ser um país e voltaria a ser quintal. Mas Trump os ignora e age como cabo eleitoral de Lula.
A pesquisa Genial/Quaest4 mostra o tamanho do problema para o bolsonarismo. Quando a pergunta é quem melhor representa hoje o discurso de patriotismo e defesa dos interesses do Brasil, Lula aparece com 51%, contra 34% de Flávio Bolsonaro. Em junho, era 47% a 37%. No momento em que Trump aumenta a pressão, Lula avança no território da soberania e Flávio recua.
O caminho para Lula está dado: contra-atacar como presidente de um país soberano. A linha deve ser direta: de um lado, um governo que defende o Brasil; de outro, uma família que trabalha contra o próprio país. De um lado, soberania; de outro, vassalagem. Flávio Bolsonaro quer ser o candidato antissistema, mas soa como candidato da submissão.
Eleição presidencial se vence quando uma diferença política vira uma divisão compreensível para a maioria. E a divisão, aqui, está pronta: de um lado, quem defende o Brasil; de outro, quem pede ajuda estrangeira contra o próprio país.
Se Lula conseguir organizar 2026 nesses termos, não estará apenas respondendo a Trump. Estará obrigando Flávio Bolsonaro a explicar por que a família que passou anos falando em pátria trabalha para que uma potência estrangeira pressione o Brasil.
Essa é uma posição difícil de sustentar.
Notas de rodapé
- EUA vão prorrogar sobretaxa aplicada ao Brasil desde julho de 2025; medida não tem efeito prático: <https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/28/governo-trump-vai-prorrogar-por-mais-um-ano-sancoes-aplicadas-ao-brasil-desde-julho-de-2025.ghtml> ↩︎
- Aliados de Flávio Bolsonaro acreditam em volta de Magnitsky contra Moraes até eleição: <https://oglobo.globo.com/blogs/bela-megale/post/2026/07/aliados-de-flavio-bolsonaro-acreditam-em-volta-de-magnitsky-contra-moraes-ate-eleicao.ghtml> ↩︎
- Trump deu nova rasteira em María Corina Machado, impedindo-a de retornar à Venezuela: <https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2026/07/07/trump-deu-nova-rasteira-em-maria-corina-machado-impedindo-a-de-retornar-a-venezuela.ghtml> ↩︎
- Pesquisa Genial – Patriotismo e defesa do Brasil – Julho/2026: <https://quaest.com.br/wp-content/uploads/2026/07/6.GENIALQUAESTJUL26PATRIOTISMO.pdf> ↩︎