O petismo vestiu a carapuça de sistema

O próprio petismo está fazendo esse trabalho.

Em 2018, o bolsonarismo venceu as eleições “colando” no Partido dos Trabalhadores (PT) o rótulo de “sistema”. Não o sistema em sentido teórico sofisticado, mas o sistema do senso comum. Bolsonaro era deputado há quase trinta anos, mas conseguiu se vender como força antissistema. O PT, depois de anos no governo, Lava Jato, impeachment, prisão de Lula etc. virou, para parte significativa do eleitorado, a imagem da ordem que precisava ser derrotada. E foi: Haddad foi derrotado com facilidade — um feito que ele enfileira eleição após eleição. Desde então, o PT nunca colocou como estratégia desmontar essa associação.

Venceu Bolsonaro em 2022, mas não rompeu com o lugar simbólico que o bolsonarismo havia construído para ele. Venceu o Bolsonaro e esqueceu de vencer o bolsonarismo e a extrema-direita. Voltou ao governo, se abrigou nas instituições, terceirizou parte da disputa política para o STF, tratou Alexandre de Moraes como escudo permanente contra a extrema-direita e passou a confundir defesa da democracia com defesa automática de um bloco institucional cada vez mais desgastado. Agora a conta chegou.

A crise do STF envolvendo o caso Master e o INSS colocou o petismo, e parte da esquerda institucional, exatamente no lugar em que o bolsonarismo sempre tentou colocá-los: o sistema.

O caso Master já não é apenas uma investigação sobre Daniel Vorcaro, Banco Master, mercado financeiro e relações com autoridades. O caso INSS já não é apenas uma apuração sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões. Os dois casos serão julgados por critérios políticos, e não jurídicos. É aí que a sessão do STF se tornou tão ruim.

O Plenário discutia a Petição 16.662, referente ao relatório produzido pela Polícia Federal no caso Master relacionado a Moraes. O julgamento foi suspenso por pedido de vista de Flávio Dino, que tem até 90 dias para devolver o processo, o que empurra a retomada para depois da eleição. Formalmente, é um pedido de vista. Politicamente, é outra coisa.

A composição da sessão deixou a fotografia ainda pior. Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin votaram pela análise conjunta dos casos; Dino caminhava nessa direção antes de pedir vista. Do outro lado ficaram André Mendonça, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Edson Fachin, num placar provisório de 4 a 3 pela manutenção das questões separadas. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli não votarão.

O eleitor comum, aquele que não é fã de política, vê algo muito simples e mais material: ministros batendo boca; Moraes votando em assunto que o envolve; Dino, ex-ministro de Lula, adiando o processo para o fim do ano; Zanin, ex-advogado de Lula, alinhado ao bloco de Moraes; Gilmar acusando Mendonça de interferência eleitoral; vê, ao fundo, o caso INSS, que já respingou no filho do Lula.

Não estamos dizendo que Lula controla o STF. Essa é uma leitura pobre. O problema é pior para o governo justamente porque política não depende apenas da verdade, mas da percepção pública.

No caso do INSS, a Operação Sem Desconto apura um esquema de fraudes que teria desviado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários entre 2019 e 2024. Fábio Luís, apelidado pela imprensa de “Lulinha”, passou a ser investigado a partir de suspeitas surgidas no caso, embora não tenha sido indiciado ou condenado — o que pouco importa para a disputa política em tempos de TV Justiça.

O bolsonarismo não precisa provar nada juridicamente. Precisa construir associação e gerar percepção.

As pesquisas mostram esse deslocamento. O Datafolha indicou que a crise ainda não alterou o voto da maioria, com 85% dizendo não mudar o voto após revelações contra Moraes e 86% após acusações contra Mendonça. Mas não podemos parar nessa informação. A Atlas/Bloomberg mostrou que 49,5% acreditam que a crise no STF prejudica mais Lula. A Indexa/Broadcast apontou 45% de desconfiança no STF e 46% atribuindo a responsabilidade principal da crise a Moraes. Hoje, toda essa crise aproxima STF, Moraes e governo Lula.

Até Lula percebeu o tamanho do problema. Disse que não era presidente quando Moraes foi indicado ao Supremo, tentando se desvincular da crise. Mas essa defesa é fraca, porque ninguém está discutindo quem assinou a indicação de Moraes, mas quem se beneficiou politicamente da aliança com ele nos últimos quatro anos. O petismo tratou Moraes como ativo político enquanto ele servia para conter o Bolsonaro. Tarde demais, agora que Moraes gera desgaste, tentar lembrar ao eleitorado que ele foi indicado por Temer.

O mesmo vale para a crise institucional. Gilmar Mendes chegou a procurar Lula para cobrar apoio do governo à cúpula da Polícia Federal e, segundo relatos, disse que o governo também tinha responsabilidade na crise que engoliu o Supremo. Essa é a materialidade da conjuntura.

O governo pode repetir quantas vezes quiser que a crise não é dele. Mas, quando ministros associados ao campo governista atuam em favor de Moraes, a distinção entre governo e sistema desaparece para o eleitor comum.

O bolsonarismo passou anos acusando o petismo de ser o sistema. Em vez de disputar essa acusação na sociedade, disputar o senso comum, o petismo vestiu a carapuça. Passou a defender não apenas o governo, mas a estabilidade de uma engrenagem carcomida, na visão do senso comum. A consequência pode ser mortal.

Flávio Bolsonaro, mesmo carregando o sobrenome Bolsonaro, mesmo vinculado ao governo anterior, mesmo dentro do Senado, mesmo investigado em desdobramentos do caso Master, ganha uma avenida para repetir a mesma operação de 2018: apresentar o adversário como sistema e se vender como enfrentamento. É uma operação hipócrita. Mas política não pune hipocrisia, ela pune quem deixa vácuos para o adversário ocupar e organizar o incômodo social.

Lula está na pior posição possível para quem enfrenta um adversário que vive de se vender como antissistema. No fim, o bolsonarismo talvez nem precise convencer o país de que o PT é o sistema. O próprio petismo está fazendo esse trabalho.

Foto de Rodolpho Dalmo

Rodolpho Dalmo

é estrategista político com 12 anos de experiência em política, eleições e governos.

Leia também:

Isso nem esquerda é. É o apodrecimento de um progressismo já fraco.
No resultado político geral, nossa leitura foi boa.
Nossa previsão para o Brasil e Minas.