Introdução
Há anos, uma parcela expressiva da direita sustenta que o Nordeste é um reduto imutável da esquerda. No progressismo, após a condenação de Jair Bolsonaro na Ação Penal 2668 — assim como ocorreu após as eleições de 2022 — começou a circular a tese de que a votação do Nordeste “salvou o Brasil” do ex-Presidente.
Este artigo busca desmontar as narrativas simplistas de ambos os polos, apresentando evidências empíricas que demonstram que o real peso do Nordeste nas eleições de 2022 foi superestimado, desviando o foco da verdadeira manobra estratégica que garantiu a vitória petista: a reengenharia eleitoral no Sudeste.
Imagem 1 – Exemplo de publicação que circula com a tese progressista

Falácia da cristalização regional de votos
Primeiro é preciso dizer o óbvio: a dinâmica eleitoral brasileira rejeita a cristalização regional observada em sistemas como o dos Estados Unidos. A volatilidade e a complexidade do voto no Brasil desmentem a noção de bases eleitorais estáticas. Esse era o desejo de tucanos e petistas, quase consolidado antes do bolsonarismo transformar o PSDB (e a corrente dominante da direita) em quase pó.
A política regional brasileira é extremamente complexa, com acontecimentos que raramente encontramos precedentes seja lá onde procuramos. Se isso é um fato na política nacional, a situação fica ainda mais complexa quando olhamos para conjunturas regionais, estaduais, e, crucialmente, municipais.
Forçar a cristalização de identidades eleitorais inexistentes — como o debate a respeito do Nordeste — serve apenas a quem reduz a política ao ato eleitoral. Para além disso, esse argumento carrega fortes traços de preconceito, que são utilizados por ambos os lados, desde quando o PSDB antagonizava com o PT no debate público. Essa questão não nasceu no bolsonarismo, mas foi aprofundada e extremada com a ascensão do ex-militar.
Outro fato óbvio é que na política não existe território perdido. Todo local, em maior ou menor grau, está em um estado de eterna disputa. Basta ver que no 2º turno em 2022, na eleição mais polarizada da história brasileira, nem Lula nem Bolsonaro conseguiram 100% dos votos válidos em nenhum município: Lula teve 93,86% dos votos válidos em Guaribas (PI) e Bolsonaro 88,99% dos votos válidos em Nova Pádua (RS). Na cidade mais bolsonarista do Brasil tem espaço para o petismo e vice-versa.
O discurso da extrema-direita tenta vender uma ideia de que a metade de baixo do Brasil “sabe votar” (seja lá o que significa isso) e o Nordeste não, pois, em alguns argumentos — carregados de preconceitos — o Nordeste é pobre, vive de assistencialismo, vota na esquerda por medo ou manipulação etc. O PT se aproveita politicamente desse estigma e se coloca como o único defensor dos nordestinos, reforçando discursos divisionistas. O progressismo trata o Sul inteiro como “fascista”, ataca os “pobres de direita” etc. A direita considera o Nordeste inteiro como “petista” e ataca a população pelo número de beneficiários do Bolsa Família. São dois discursos que variam na forma, mas se assemelham no conteúdo.
Quando olhamos a história brasileira podemos perceber que o Nordeste não foi sempre progressista assim como o Sul não foi sempre conservador. Neutralizar uma identidade eleitoral em uma região ou segmento — como tentam fazer bolsonarismo e progressismo — ajuda a cristalizar votos. É uma tática de benefícios mútuos: se a região x é Lula, a região y precisa se “defender” do lulismo e abraçar seu antagonista da vez. Se professores públicos são progressistas, o bolsonarismo precisa criar caricaturas desses profissionais para se posicionar do lado oposto e ser a voz de quem defende educação privada, educação domiciliar etc.
Após a ditadura, o Sul era o que o Nordeste representa hoje. A região era governada por trabalhistas, pela esquerda do MDB, enquanto o Nordeste era dominado pelo PFL (antigo Arena e hoje União Brasil), MDB e PSDB. Até 2014 o PT colhia bons resultados no Sul.
Voto “Lulema”
Para ficar em um exemplo sobre o comportamento eleitoral do brasileiro, basta analisar o mapa eleitoral de Minas Gerais nas eleições de 2022 para presidente e governador: ao olhar a vitória de Lula, quem analisa a política apenas por votos crus carimbaria algumas regiões como “progressistas”, portanto dariam seus votos ao Kalil, candidato do PT à época ao governo do estado. Mas não. Essas mesmas regiões escolheram Romeu Zema, o que foi apelidado de voto “Lulema”, prova cabal de que o eleitor, mesmo em um contexto de polarização nacional extrema, é capaz de despolarizar o voto nos níveis inferiores.
Foi-se o tempo em que o eleitor comprava um “pacote ideológico” completo. Hoje ele está fazendo uma escolha pragmática e utilitária em cada esfera de poder. Lula representa a memória afetiva, a inclusão social e a estabilidade econômica, enquanto Zema representa a gestão eficiente, o liberalismo econômico e a rejeição à “velha política”.
Em 2022, os mineiros votaram buscando o melhor dos dois mundos: a segurança social do PT e a segurança fiscal/gestão da direita não-bolsonarista de Zema, o que na ciência política é chamado de Efeito Split-Ticket (votação em chapa dividida). Para ficar em uma metáfora, a eleição presidencial é uma “onda”, mas as eleições estaduais e municipais são “correntes” que podem nadar contra. Inclusive são essas correntes que dão os indicativos da eleição seguinte, não o oposto.
O “Lulema” em Minas é uma prova do pragmatismo e da volatilidade do eleitorado do Sudeste. No Espírito Santo e no Rio de Janeiro, Bolsonaro venceu no estado e nas capitais nos dois turnos. Em Minas, Lula venceu no estado e perdeu na capital nos dois turnos. Em São Paulo, Bolsonaro venceu no estado e perdeu na capital nos dois turnos. O Sudeste não é um bloco monolítico, mas sim um mosaico de complexidades eleitorais que o torna o verdadeiro território de disputa e o ponto de inflexão da eleição.
A realidade eleitoral no Brasil em 2022
Nota: todos os gráficos apresentados no texto foram elaborados por nós e os dados neles contidos também coletados por nós, via <https://sig.tse.jus.br/>. Concentrei os dados de votações em cinco grupos. São eles: 1) PSDB e 2) PT (que antagonizaram todas as eleições nacionais de 1994 até 2014); 3) Fernando Collor e 4) Jair Bolsonaro; e todos os demais partidos foram agrupados em 5) “Outros” (PDT, NOVO, MDB, PSTU e DC em 2018 e 2022; PATRI, REDE, PODE, PSOL e PPL em 2018; UNIÃO, PTB, UP e PCB em 2022). Isolei Collor e Bolsonaro pois ambos representam fenômenos de voto de opinião e personalismo que transcendem as estruturas partidárias tradicionais. Quando são citados os governadores, os dados são das eleições de 1990 até 2022 (exclui eleições suplementares). As porcentagens mencionadas são sempre em votos válidos.
O Nordeste
Assim como a direita faz uma análise superficial do Nordeste, os governistas usam dados enganosos para explicar as eleições de 2022. Além da eleição nacional, o argumento do “progressismo” do Nordeste não para de pé quando olhamos para dois dados importantes das eleições de 2024: os partidos progressistas1 comandam 25,55% dos municípios nordestinos (com apenas duas de nove capitais) e nas câmaras municipais elegeram 26,93% dos vereadores2 (apenas 7,14% nas capitais). A força de Lula é um fenômeno de voto de opinião e de memória afetiva, que não se traduz em capilaridade orgânica nas bases municipais. O Nordeste é um gigante eleitoral com pés de barro na política local, o que representa um desafio de sustentação para o PT e uma oportunidade para a oposição.
Gráfico 1 – Espectro vencedor das eleições para Governador dos estados do Nordeste em 1º ou 2º turno desde 1990

Os progressistas são hegemônicos no Nordeste em eleições de governadores, como mostra o Gráfico 1, com uma leve tendência de queda nas próximas eleições. Mas isso não desce para as camadas municipais. As eleições municipais são aquelas em que vemos quais partidos têm mais penetração social. Ninguém mora no “Brasil” ou em “Pernambuco”. São abstrações isoladas e debatidas em eleições majoritárias onde na maioria das vezes a população não consegue fazer uma ligação direta com os candidatos, decidindo seus votos pelo macro, questões morais etc. É nas cidades que a população vive, come, se relaciona etc. É nos municípios (pelo menos na maior parte deles) que as pessoas conseguem bater na porta dos vereadores ou até dos prefeitos, onde suas realidades são mais semelhantes e os assuntos — para o bem ou para o mal — podem atingir tanto um quanto outro da mesma maneira.
Gráfico 2 – Resultado eleitoral no Nordeste na eleição presidencial em 1º turno

Gráfico 3 – Resultado eleitoral no Nordeste na eleição presidencial em 2º turno

Como mostram os gráficos 2 e 3, no Nordeste, apesar da vitória e da segunda melhor votação em primeiro turno desde 1998 (66,76%), no segundo turno o PT teve uma pequena queda de 0,35% (em relação a 2018) e obteve a 2ª pior votação desde 2002, com 69,34% dos votos.
O Nordeste foi a única região onde Lula venceu no primeiro e segundo turnos em 2022 (o que acontece desde 2002 e não ocorre em outra região desde o resultado eleitoral no Norte em 2014). Mas esse dado cru é apenas uma foto de um filme e não explica como a eleição foi decidida. Dar todo o peso da última vitória petista ao Nordeste alimenta uma falsa ilusão e rebaixa o debate.
O peso do nome de Lula no Nordeste
Quando comparamos os números do PT de 2022 — em relação a 2018 —, notamos um aumento de 16,16% da votação de primeiro turno com Lula e uma queda de 0,35% no segundo turno (Gráficos 4 e 5).
Gráfico 4 – Votos do PT em primeiro turno no Nordeste

Ao isolarmos os números do primeiro turno (Gráfico 4), percebemos a força da figura de Lula no Nordeste. O voto de 1º turno é o voto mais fiel, quando o eleitor (com raras exceções, como em casos de voto útil) vota em quem ele acredita, diferente do voto de segundo turno onde o eleitor vota no “menos pior”, contra aquele candidato que ele rejeita mais etc. De 1994 a 2006 (quando disputou — e polarizou como segunda força — sua quinta eleição presidencial consecutiva) Lula entregou um crescimento de 43,95% dos votos na região (saiu de 22,83% em 1989 para 66,78% em 2006). De 2010 a 2014, Dilma perdeu 7,10% dos votos e Haddad sozinho — em uma eleição — 9,08%, somando um recuo de 16,18%, quase os mesmos 16,16% de votos recuperados pelo atual presidente em 2022.
Com o retorno do pernambucano, o PT restaurou os patamares de sua era de ouro. Contudo, a análise dos dados revela que este movimento não constitui uma anomalia estatística, mas sim o retorno à média histórica do partido na região. Este é o ponto que aprofundaremos.
O papel de cada região nas eleições de 2022
Primeiro turno
Gráfico 5 – Comparativo Haddad (2018) x Lula (2022) em 1º turno

Quando analisamos a votação de primeiro turno em 2022 no comparativo com 2018, temos duas divisões claras do mapa nacional que desmistificam alguns mitos de cristalização de votos.
No primeiro grupo temos Nordeste e Norte. Regiões onde Lula avançou (ele ampliou a votação em todas as regiões), mas as únicas duas onde Bolsonaro também ampliou sua votação. No Nordeste, Lula cresceu 16,16% e Bolsonaro 1,11%. No Norte, Lula avançou 10,29% e Bolsonaro 2,07%.
No segundo grupo temos Sudeste, Centro-Oeste e Sul, onde Lula — no comparativo com 2018 — avançou sobre todos os seus adversários. Ou seja, apenas o PT cresceu em votação. No Sul Lula cresceu 16,97% (Bolsonaro caiu 2,83% e os demais partidos 9,73%), no Centro-Oeste Lula avançou 17,05% (Bolsonaro recuou 3,9% e os demais partidos 8,60%) e no Sudeste, a chave para entender a eleição de 2022, o petista ampliou a votação em 23,44%, os demais partidos perderam 11,96% e Bolsonaro regrediu em 5,67%.
Segundo turno
Gráfico 6 – Comparativo Haddad (2018) x Lula (2022) em 2º turno

Quando olhamos a votação de Lula nas cinco regiões, em segundo turno, o crescimento do presidente, em média, foi de pouco mais de 5%. As únicas duas regiões que fugiram a essa regra foram Nordeste (queda de 0,35%) e Norte (crescimento de 0,86%). No Centro-Oeste e Sul os crescimentos foram, respectivamente, de 6,34% e 6,43%. No Sudeste o crescimento foi de 11,11%.
Crescer 23,44% no primeiro turno e 11,11% no segundo já seria um feito e tanto no Centro-Oeste, o menor colégio eleitoral brasileiro (7 de cada 100 eleitores). Quando analisamos nas proporções do Sudeste, que possui 40 de cada 100 eleitores do país, começa a dar o real peso da região no pleito de 2022.
O ponto de inflexão: a reengenharia eleitoral no Sudeste
Gráfico 7 – Comparativo de votação nominal de Haddad (2018) x Lula (2022) em 1º turno

Gráfico 8 – Comparativo de votação nominal de Haddad (2018) x Lula (2022) em 2º turno

Dando uma olhada nas votações nominais, podemos entender por que o crescimento do PT no Sudeste explica a vitória sobre Jair Bolsonaro. De 2018 para 2022, o PT ampliou a votação no primeiro turno em 12,4 milhões de votos. Ao ir para o segundo turno, o PT angariou mais 1,7 milhão. Já Bolsonaro perdeu 445 mil votos no primeiro turno e conquistou 3,5 milhões no segundo turno.
A queda de Bolsonaro no primeiro turno e a subida no segundo mostram um voto muito mais antipetista do que bolsonarista. Não que não exista no Sudeste o voto antipetista, mas de cada 10 eleitores dessa região que não se abstiveram — em relação a 2018 — 8 ficaram com o petista. A principal explicação para isso é bem clara: a gestão da pandemia (sete em cada dez brasileiros conhecem alguém que morreu de Covid-193). Outro número que evidencia o medo de uma reeleição de Bolsonaro é quando analisamos a desidratação (de quase 19%) dos demais partidos em detrimento dos dois candidatos conduzidos ao segundo turno. Para comparação, no auge do antipetismo, em 2018, o Partido dos Trabalhadores perdeu pouco mais de 13% no comparativo com 2014.
Outro ponto que explica o crescimento de votos do Lula no Sudeste é a própria figura do Lula, que tem uma força nas grandes periferias, majoritariamente concentradas no Sudeste. Fato também inegável quando comparamos os números das eleições sem e com o petista.
O avanço de Lula no Sudeste não pode ser interpretado como mero crescimento. Trata-se de uma operação cirúrgica de absorção de votos. Esta manobra atingiu simultaneamente a base de Bolsonaro e, de forma crucial, o voto da direita não bolsonarista, órfã do PSDB. A engenharia estratégica do PT consistiu em se consolidar como o voto útil antibolsonarista, sem comprometer a fidelidade de sua base social. Assim como o salto de aprovação do governo Lula após o tarifaço do Trump, esse avanço no Sudeste se deve também a mais uma incompetência do bolsonarismo.
Conclusão
Conforme demonstrado, o Nordeste cumpriu seu papel dentro da expectativa histórica. No entanto, a vitória estratégica do PT em 2022 foi decidida pela reengenharia eleitoral no Sudeste. A execução tática de Lula conseguiu desidratar a base bolsonarista e absorver o voto útil dos demais partidos em um movimento inédito.
O PT, desde 1989, com raríssimas exceções, sempre foi primeira ou segunda força em todas as regiões. Esse fato ocorreu até mesmo sem Lula, em 2018, no auge do antipetismo. Ainda não está claro para ninguém qual o plano eleitoral de longo prazo, já que a partir de 2030 o Partido dos Trabalhadores não poderá contar mais com a figura de Lula.
Assim como o Partido dos Trabalhadores fez no Nordeste nas décadas de 1990 e 2000, é preciso recriar suas bases progressistas no Sudeste e no Sul e não perpetuar o discurso de que essas duas regiões são de direita, imóveis etc. Isso abre campo para os adversários atuarem, assim como o próprio PT fez no passado.
A principal implicação estratégica é que a política brasileira precisa urgentemente superar a retórica polarizada. O sucesso eleitoral reside na capacidade de interpretar a complexidade do voto pragmático e na construção de capilaridade orgânica onde a polarização falha, ou seja, no nível municipal e estadual.
O novo mapa para 2026
Em 2022 o centro do jogo político foi o Sudeste. Em 2026, a região deve seguir tendo o mesmo papel. Em uma campanha de reeleição, o eleitor avalia os quatro anos anteriores de trabalho de quem deseja seguir no cargo. O primeiro adversário de Lula é ele mesmo.
Sem a presença de Bolsonaro como candidato, o eleitorado do Sudeste não tem mais o que temer e o PT perde o discurso de “salvar a democracia”, “derrotar o bolsonarismo” etc. Aqui está a brecha para quem deseja se colocar como alternativa viável e competitiva contra o governo.
Vai emergir aquele que conseguir desmontar os quatro anos de Lula III sem que lhe seja colada a pecha de “bolsonarista”. Ou seja, alguém que personifique, na forma e no conteúdo, a MUDANÇA, para nós, a palavra-chave das eleições de 2026. Até o momento, nenhuma força com esse potencial se consolidou no horizonte político.
Notas de rodapé
- Considerei PT, PSB, PDT, PCdoB, PV e Rede ↩︎
- Dados do TRE de 6 e 27 de outubro de 2024 ↩︎
- CUNHA, Lílian. Sete em cada dez brasileiros conhecem alguém que morreu de Covid-19. CNN, 29 de abr. de 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/saude/sete-em-cada-dez-brasileiros-conhecem-alguem-que-morreu-de-covid-19/>. Acesso em: 04 de nov. de 2025. ↩︎
Revisado e atualizado em 05/10/2026