As brechas do bolsonarismo para 2026

O jogo de 2026 pode, de fato, ser decidido, em uma união de resgate de sentimentos e povo na rua.

Mesmo após a condenação de Jair Bolsonaro por “atos antidemocráticos”, 50% dos brasileiros aprovam a condenação contra 43% que a rejeitam (Datafolha)1. Esse dado revela um fato interessante: assim como ocorreu com Lula em 2017 — quando 54% apoiavam a sua condenação e 40% rejeitavam2 —, o comportamento do eleitorado de lideranças que atingem certo patamar de popularidade dificilmente se move por decisões institucionais ou argumentos racionais. Bolsonaro e Lula foram condenados, mas o lulismo e o bolsonarismo não.

O que pode, de fato, abalar esse alicerce são duas mortes — concretas e simbólicas. De um lado, o resgate da pandemia: Flávio Dino determinou que a Polícia Federal investigue Bolsonaro e aliados pela gestão da Covid-19, com base no relatório da CPI3. O ex-presidente foi indiciado em até 10 possíveis delitos. Se Bolsonaro for condenado nesse caso, antes das eleições de 2026, o impacto pode ser devastador. Afinal, entre 74 a 85 em cada 10 brasileiros conhecem alguém que morreu de Covid. Não há abstração possível: é uma condenação que resgata uma dor concreta e mexe com os sentimentos de milhões de famílias.

Por outro lado, a morte do patriotismo. O bolsonarismo, que sempre se apresentou como movimento de “defesa da pátria”, vem acumulando derrotas, tropeços e entreguismo nesse campo: (1) a aliança automática com Trump no caso do tarifaço, medida apoiada por apenas 19% da população6 e que dobrou a percepção negativa dos brasileiros em relação aos EUA, de 24% para 48%7; (2) as manifestações de 7 de setembro, onde bolsonaristas preferiram hastear a bandeira dos Estados Unidos em vez da brasileira; (3) e a PEC da Blindagem e a mobilização pela Anistia — em um movimento errado na guerra contra o judiciário —, amplamente rejeitadas pela população8, que reacenderam a capacidade de mobilização da esquerda, levando milhares às ruas em 21 de setembro.

No Brasil, a tentativa de reeleição nada mais é do que um plebiscito. Tirando Bolsonaro, todos os presidentes em mandato seguiram no cargo. A eleição de 2022 já foi, em grande medida, um julgamento sobre as consequências da pandemia, mais pela sociedade do que pela propaganda petista. Se em 2026 o PT colocar no centro do debate a pandemia e o falso patriotismo, o bolsonarismo pode sangrar.

Se a esquerda souber manter a energia das ruas e realizar manifestações propositivas, com pautas populares — como a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, a redução da jornada de trabalho e o passe livre nacional —, Lula pode entrar em 2026 com mais tranquilidade para disputar a reeleição.

Lula lidera todos os cenários de 1º e 2º turno, com cerca de 8 p.p. à frente de Bolsonaro e Tarcísio, respectivamente9. O jogo segue aberto, mas a diferença é que agora o tabuleiro pode, enfim, trazer consequências mais duras para o bolsonarismo. Na eleição de 2022 o PT preferiu enfrentar Bolsonaro priorizando a defesa da democracia em abstrato. A memória das vidas perdidas e a percepção de “traidor da pátria” foram tratadas de forma secundária. E é nesse campo que o jogo de 2026 pode, de fato, ser decidido, em uma união de resgate de sentimentos e povo na rua.

Cenários possíveis até 2026

Probabilidade alta: o bolsonarismo se mantém forte, mesmo com condenações por “atos antidemocráticos”, pois sua base consolidada não se move por decisões institucionais. Cenário eleitoral: vitória de Lula no segundo turno contra um bolsonarista, com margem entre 1% a 3%.

Probabilidade média: a esquerda sustenta mobilizações de rua com pautas populares, ampliando sua base social e impondo pressão política sobre Bolsonaro e seus aliados. Cenário eleitoral: vitória de Lula no segundo turno contra um bolsonarista, com margem entre 4% a 6%.

Probabilidade baixa: Bolsonaro é condenado pela gestão da pandemia antes da eleição, e a lembrança das mortes da Covid rompe a blindagem emocional de parte de seu eleitorado. Cenário eleitoral: vitória de Lula no segundo turno contra um bolsonarista, com margem entre 7% a 9%.

Probabilidade nula: o bolsonarismo se enfraquece apenas por condenações ou decisões que não dialoguem com a vida real dos brasileiros e deixe de ser uma segunda força. Cenário eleitoral: vitória de Lula no segundo turno contra um não bolsonarista, com margem entre 1% a 3%.

Notas de rodapé

  1. BOECHAT, Gabriela. Prisão de Bolsonaro tem apoio de 50% e rejeição de 43%, diz Datafolha. CNN, Brasília, 13 de set. de 2025. Política. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/politica/prisao-de-bolsonaro-tem-apoio-de-50-e-rejeicao-de-43-diz-datafolha/>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  2. Datafolha aponta que 54% querem Lula preso e 89% avaliam que Câmara deve autorizar denúncia contra Temer. G1, Brasília, 02 de out. de 2017. Política. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/datafolha-aponta-que-54-querem-lula-preso-e-89-avaliam-que-camara-deve-autorizar-denuncia-contra-temer.ghtml>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  3. CASADO, Letícia; SATIE Anna. Dino manda PF investigar Bolsonaro e aliados por gestão durante pandemia. UOL, Brasília, 18 de set. de 2025. Política. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/09/18/dino-manda-pf-investigar-bolsonaro-e-aliados-por-gestao-durante-pandemia.htm>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  4. CUNHA, Lílian. Sete em cada dez brasileiros conhecem alguém que morreu de Covid-19. CNN, 29 de abr. de 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/saude/sete-em-cada-dez-brasileiros-conhecem-alguem-que-morreu-de-covid-19/>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  5. 3 em cada 4 brasileiros já perderam alguém próximo para a covid-19. Exame, 3 de maio de 2021. Disponível em: <https://exame.com/bussola/3-em-cada-4-brasileiros-ja-perderam-alguem-proximo-para-a-covid-19/>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  6. Quem são os 19% de brasileiros que apoiam o tarifaço de Trump, segundo a Quaest. G1, 31 de jul. de 2025. Política. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/07/31/quaest-tarifaco-trump.ghtml>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  7. DA SILVA, Camila; STABILE Arthur. Brasileiros passam a ter visão mais positiva sobre China que sobre EUA e Israel, mostra Quaest. G1, Brasília, 26 de ago. de 2025. Política. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/08/26/quaest-percepcao-brasileiros-estados-unidos-china.ghtml>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  8. STABILE, Arthur; TURIONI, Felipe; PETRÓ, Gustavo. Quaest: 41% são contra anistia para todos, incluindo Bolsonaro; 36% são a favor. G1, São Paulo, 16 de set. de 2025. Política. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/09/16/quaest-anistia-bolsonaro-8-de-janeiro.ghtml>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
  9. Pesquisa de avaliação do governo Lula. Quaest/Genial, set. de 2025. Disponível em: <https://media-blog.genialinvestimentos.com.br/wp-content/uploads/2025/09/17204921/GENIALQUAESTNACSET25ELEICOES26.pdf>. Acesso em: 22 de set. de 2025. ↩︎
Foto de Rodolpho Dalmo

Rodolpho Dalmo

é estrategista político com 12 anos de experiência em política, eleições e governos.

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