Introdução
Nos últimos anos, especialmente na última década, a mentira se tornou um dos pilares do marketing político, amplamente adotado por candidaturas de relevância mundial. Como uma parcela consegue se eleger, formou-se um imaginário coletivo de que a chave para a vitória política está na criação de uma “realidade paralela”, onde a manipulação e as promessas vazias dominam. A fórmula parece simples: contrate um bom marqueteiro, uma equipe de comunicação, crie uma história envolvente e o sucesso está garantido, fazendo qualquer pessoa, com ou sem base, se tornar competitiva — ou achar que é. Essa ilusão, infelizmente, tornou-se uma das maiores decepções da política contemporânea, muitas vezes alimentada pelos próprios profissionais. Ao confundir ganho eleitoral com ganho político, fazemos a política retroceder, resumindo tudo à vitória, como as empresas resumem tudo ao lucro.
É nesse cenário de manipulação de realidades e promessas vazias que o governo Lula III se insere. Desde o início de seu terceiro mandato, o governo tem enfrentado um dilema entre (1) as propagandas, celebradas por sua militância e (2) a realidade concreta vivida pela população. As estratégias de marketing político e propaganda — tema já abordado por nós1 — têm mascarado um governo que, em muitos aspectos, falha em atender às necessidades mais urgentes. A promessa de transformação social, impulsionada por discursos de igualdade e justiça, esbarra na dura realidade de políticas que muitas vezes não atingem sua base, criando um abismo entre o que é dito e o que é feito, colocando Lula e Bolsonaro na falsa caixa de que “é tudo igual, pra que mudar?”. Economicamente, essa afirmação nem é tão equivocada assim. E é isso que pretendemos abordar nesse texto.
Vamos iniciar abordando os números da aprovação do governo Lula III. Depois pretendemos tratar de alguns temas que emergiram recentemente e os erros do governo na forma como foram tratados, como o endividamento familiar causado pelo fracasso do Desenrola Brasil e o desemprego e a chance perdida com a luta pelo fim da escala 6×1. Também vamos abordar os dados sobre o meio ambiente, a tragédia no Rio Grande do Sul (RS), as eleições de 2024 e, por fim e mais importante, o 8 de janeiro, o plano para matar Lula-Alckmin e a maior chance que segue sendo perdida pelo governo. Na conclusão analisamos o que esses erros do governo podem desencadear nos últimos dois anos de mandato e nas eleições de 2026.
Aprovação do governo Lula III
Apesar de toda a propaganda e da efervescência da base mais fiel do lulismo, as pesquisas mais recentes indicam um declínio na aprovação do governo. A última Datafolha, de outubro de 20242, logo após o primeiro turno, apontava que apenas 36% dos brasileiros aprovavam o governo. A pesquisa mais recente CNT/MDA3, realizada em novembro de 2024, revelou uma queda de mais de sete pontos percentuais desde janeiro. Não abordaremos a Genial/Quaest de 10 de dezembro4 pois ela saiu enquanto este texto era finalizado, mas ela também não traz números otimistas para o governo.
Segundo os resultados da 162ª Pesquisa CNT de Opinião, atualmente “35% dos entrevistados classificam a atuação do governo como ótima ou boa, enquanto 31% a consideram ruim ou péssima. Em relação ao desempenho pessoal, a aprovação do presidente da República é de 50%, contra 46% de desaprovação.” No cenário estimulado para as eleições de 2026, já há um empate técnico entre Lula, com 35% e Jair Bolsonaro, com 32%.
Quando olhamos a diferença entre a avaliação positiva e negativa, Lula saiu de uma vantagem de 18 pontos (43% a 25%) em março de 2023 para apenas quatro atualmente (35% a 31%). As avaliações positivas caíram oito pontos e as negativas subiram seis.
A pesquisa comparou as avaliações do governo com as pesquisas realizadas entre 19 e 23 meses do início de cada mandato desde o 2º mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Os 35% de Lula só superam FHC (19%) e Michel Temer (15%). Esse indicador de 35% das avaliações positivas, ou seja, entrevistados que avaliam o governo como ótimo ou bom, está atrás até do governo Bolsonaro, que em outubro de 2020, no meio da pandemia, era avaliado positivamente por 41% da população. Ainda sobre o ex-presidente, 57,6% da população considera o governo igual (21,4%) ou pior (36,2%) que o de Bolsonaro. Quem avalia como melhor é 41% hoje contra 48% no início deste ano.
Muito mais do que os números, que são ruins, o governo precisa se atentar às causas e implicações desses indicadores. Vamos a eles.
Endividamento familiar, Desenrola Brasil e a subutilização dos bancos públicos
O endividamento das famílias brasileiras, que em 2019 atingia 66,5%, alcançou 78,8% em 2024, o maior nível desde 20225. O Programa Desenrola Brasil, lançado para combater esse problema, foi um fracasso e não ajudou “as pessoas a recuperarem o crédito”, como disse o Haddad no seu discurso em rede nacional.
Tem quem defenda o governo e diga que as entidades financeiras não se alinharam ao Desenrola. No entanto, isso passa também por erro do governo, que deveria ter feito um uso estratégico do Banco do Brasil, como um instrumento de redistribuição econômica, oferecendo condições mais favoráveis para os consumidores e desafiando os bancos privados a reduzirem suas taxas de lucro. Isso não só traria alívio para as famílias endividadas, mas também redistribuiria a riqueza de forma mais justa. Isso forçaria uma redução drástica nas taxas de lucro dos bancos privados, ou, em última instância, levaria essas instituições à falência, obrigando-as a perdoar ou conceder grandes descontos nas dívidas. Esse é o tipo de pressão política que gera resultados reais. Isso era o que Lula devia ter feito com Silvio Santos quando o apresentador, à beira da falência e com medo de ser preso6, foi até o presidente pedir ajuda. Lula devia dar duas opções: deixar o mercado agir (como eles defendem, e o que quebraria o PanAmericano) ou salvar o banqueiro em troca da concessão do SBT. A política verdadeira, que visa transformar a sociedade, exige ações pragmáticas e não se deixa levar pelo “sonho” de harmonia entre instituições. Em vez disso, age onde é necessário, sem medo de confrontos ou adversidades. No entanto, o governo falhou em implementar medidas decisivas para apoiar as famílias endividadas, permitindo que os bancos privados continuassem a anunciar lucros bilionários enquanto a base populacional (e os pequenos e médios empresários) se afasta cada vez mais do acesso ao crédito justo e à recuperação financeira. Família sem dívidas consome, e esse consumo é o principal indutor econômico de qualquer nação.
O Desenrola foi encerrado em 20 de maio deste ano, mas ainda dá tempo do governo utilizar os bancos públicos para dar esse gás na economia e aumentar sua aprovação. Acreditamos em alguns eixos que deveriam ser postos em prática.
A tática primeira é que a renovação do programa Desenrola Brasil foque em eliminar as dívidas com cartão de crédito, que representam 86,9% dos casos de endividamento no país. A abordagem deve ser dupla, e aí entra o segundo ponto: o governo deve se engajar em um debate sério sobre as altíssimas taxas de juros, propondo uma reforma regulatória que favoreça uma economia mais justa e acessível. Alguns países da OCDE trabalham com teto de 30%, longe dos 400 e tantos do modelo brasileiro. O governo deveria utilizar a força dos bancos públicos para cobrar um juro no cartão de crédito que fosse menor do que o menor juro aplicado por bancos relevantes no mercado privado. Essa lista de bancos poderia ser considerada levando em conta a fatia do mercado que ele possui, para que o feitiço não se vire contra o feiticeiro e o governo seja refém de “bancos fantasmas”, criados com o intuito de destruir os bancos públicos. O Banco Central (BACEN) é um jogador de poker que senta na mesa com fichas infinitas, define o valor das fichas dos adversários e ainda vê as suas cartas. Seria útil para a sociedade se não fosse privatizado, outra briga que o governo abandonou. Se o governo tivesse coragem de reestatizar o BACEN e acabar com o arcabouço fiscal do Haddad, esse texto poderia ser jogado no lixo. Essa é a grande “revolução” que precisa ser feita no Brasil. Essa deveria ser a luta primordial de qualquer governo, pois a moeda é uma arma política.
Desemprego e como o governo pode usar o fim da escala 6×1 como trampolim para uma nova legislação trabalhista
Hoje, em média, um trabalhador holandês com mais de 21 anos trabalha 29 horas por semana em troca de 385 euros. Imagine o espanto desse mesmo trabalhador, ao pesquisar sobre o nosso país, ver que ainda existem pessoas trabalhando 44 horas semanais para receber (numa conversão simplória) quase 226 euros por mês. Atualmente, o IBGE contabiliza um catador de recicláveis que passa 14 horas por dia debaixo de sol e chuva como “ocupado” e joga na mesma sacola de um trabalhador com CLT que passa 8 horas sentado no ar-condicionado. Assim é com um motorista da Uber ou um entregador de iFood. Mas um número é alarmante: hoje 38,9% de toda a nossa força de trabalho é informal (74,6% deles sem CNPJ7). Quando Lula entregou o país para Dilma, esse número era de 28,2%.
Os números de “pleno emprego” são falaciosos e mascaram a realidade do mercado de trabalho no Brasil. A primeira ação que o governo precisa fazer é mudar o cálculo implementado por Michel Temer. Trabalhador que não tem direito a salário-mínimo, descanso semanal remunerado, férias, 13º e previdência não pode ser considerado empregado. Hoje quem tem esse direito é apenas 37,4% da força de trabalho. Aqui teríamos um dado real sobre a classe trabalhadora brasileira. Se isso não for feito, o governo seguirá em parafuso, sem entender como o “desemprego” “cai” junto com a aprovação de Lula. O historiador Jones Manoel8 cita o ciclo de mentira e o “crime perfeito”: o governo mente que o Brasil está próximo do pleno emprego → os governistas reforçam a mentira → a mídia repete → o BACEN ratifica e usa esse falso dado da realidade para justificar a taxa de juros (segunda mais alta do mundo em termos reais) → taxa essa criticada pelo governo em uma guerra puramente retórica. O governo precisa reconhecer essa distorção e usar esse tema como um ponto de inflexão para a retomada da confiança popular e a implementação de uma verdadeira agenda trabalhista.
A segunda ação seria fortalecer uma mobilização política que envolvesse o PT, seus aliados, movimentos sociais e trabalhadores para pressionar pela revogação imediata da reforma trabalhista de Temer, popularizando essa pauta usando como escada as lutas (1) pelo fim da escala 6×1, (2) pela redução da jornada para 30 horas semanais e (3) pela implementação de um novo marco trabalhista mais justo e moderno. Essa agenda de transformação não deve ser apenas uma proposta legislativa, mas uma verdadeira bandeira política de resistência, capaz de unir a base e resgatar a confiança da classe trabalhadora. Isso passa pelo fortalecimento dos sindicatos, que servem como via de mão dupla, dando (1) apoio nas ruas ao governo para defender seus projetos e (2) suporte aos trabalhadores. Fato é que os sindicatos da base governista não aderiram em massa às manifestações pelo fim da escala 6×1, no dia 15 de novembro.
As manifestações contra essa jornada de trabalho do século XIX, realizadas em praticamente todas as capitais no feriado, são um claro sinal de que a população deseja mudanças reais nas condições de trabalho. Ao abraçar essa luta, o governo pode não apenas melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, mas também reconquistar a confiança popular, ao demonstrar que está disposto a implementar reformas significativas para a classe trabalhadora, principalmente a que mais sofre sem vida além do trabalho, como o nome do movimento diz muito bem.
Ao assumir a liderança dessa briga, com ações nas redes, cadeia de rádio e TV e principalmente nas ruas, o governo estaria dialogando diretamente com aproximadamente 10,5 milhões de trabalhadores das áreas do comércio e de serviços em geral, os mais afetados pela escala 6×19. Essa parcela da população recebe até 2 salários mínimos, fazendo parte do grupo onde 42% aprovam a gestão Lula contra apenas 24% que reprovam, um dos pontos que ainda dão sustentação popular ao governo. É o caso de uma trabalhadora que saiu da sua loja ao ver uma manifestação no Shopping da Bahia, e deu uma entrevista para o Jornal Correio10, dizendo que foi uma surpresa, “mas uma surpresa feliz porque eu acho que essa PEC deu voz para a gente, que é de uma classe maior, mas que não tem vez”, disse, sendo interrompida pelas próprias lágrimas”. O fim da escala 6×1 tem que ser utilizado para ampliar a luta pela redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais, abraçando todas as outras profissões. Esse é um debate que deixa a direita e os defensores do livre mercado (e dos acordos entre patrão e empregado) nas cordas. Não faltaram exemplos de políticos que, sem poder dizer que são a favor da escala desumana, falaram que são a favor da redução pessoalmente, não como parlamentares, o que não faz sentido nenhum.
Além disso, o governo tem diversas outras ações que podem ser feitas sem a ajuda do congresso. Para ontem, Lula pode retomar as quase 12 mil obras paradas11 pelo país e gerar empregos que impactarão a vida de milhares de famílias que hoje se sustentam por trabalhos informais ou até mesmo desistiram de procurar emprego. O Rio Grande do Sul, por exemplo, era para estar com tantas obras (de moradia, ambientais, etc.) que faltaria comunicação para anunciá-las, mas o governo preferiu salvar o novo Teto de Gastos.
Números do meio ambiente, tragédia no Rio Grande do Sul e chance perdida de fazer história
Imagine os cinco menores estados brasileiros (incluindo o Rio de Janeiro) e o Distrito Federal queimados. Esse é o tamanho do que aconteceu de janeiro a setembro de 2024 no Brasil, onde as áreas queimadas foram de 22,38 milhões de hectares, 150% maior do que em 2023, segundo o MapBiomas12. Essa é mais uma causa abandonada pelo governo, mesmo tendo a figura da Ministra do Meio Ambiente Marina Silva como liderança máxima e um grande interesse da comunidade internacional. Além da essencial sobrevivência humana, da fauna e flora, essa é uma luta que passa pelo enfrentamento à bancada do boi e ao agronegócio, setor que recebeu quase R$ 432 bilhões no Plano Safra 2023/2024 e trabalha contra a reindustrialização do país, numa lógica de transformar tudo em plantação de soja.
O Jornal O Futuro, em sua 3ª edição13, mostra com números que as queimadas ocorreram onde o agronegócio tem interesse em se expandir. O jornal noticia que a “área queimada está concentrada na região de expansão da fronteira agropecuária na Amazônia e no Cerrado.” Quase 60% de toda a extensão afetada pelo fogo está concentrada apenas no Mato Grosso, Pará e Tocantins, “zonas de expansão do agronegócio”. São Félix do Xingu e Altamira, dois municípios do sul do Pará, “possuem mais ocorrências de focos de incêndio do que todo o estado de São Paulo”.
E outros biomas ainda estão em igual ou pior situação. O Pantanal, no período estudado em 2024, teve um aumento de 2.306% em sua área devastada em relação à média dos cinco anos anteriores. A Mata Atlântica teve 896 mil hectares incendiados este ano até setembro. Apenas Caatinga e Pampa registraram quedas nos números de queimadas em relação ao mesmo período de 2023.
Segundo relatório do Ministério do Meio Ambiente, de 15 de outubro, o governo federal manteve 3.732 profissionais em campo para o combate ao fogo. A maior parte dos profissionais são brigadistas e, segundo o presidente do Ibama, 70% são quilombolas e 20% indígenas. Em sua matéria, o jornal O Futuro destaca que esses trabalhadores “possuem contratos temporários, de até seis meses, sem prorrogação, recebem um salário-mínimo e 20% de adicional de insalubridade.” Por aqui passa a segunda ação que o governo já deveria ter colocado em prática no primeiro dia de 2023: ampliar o quadro de funcionárias que atuam no combate às queimadas, melhorando suas condições de trabalho. Especialistas apontam que esse número de profissionais de combate ao fogo deveria ser pelo menos o triplo do atual. E, cá entre nós, se fossem 50 mil em períodos de queimadas, não fariam cócegas ao orçamento de um governo que foi eleito tendo como uma de suas bandeiras a proteção do meio ambiente.
Todos esses 22,38 milhões de hectares queimados resultaram em pouco mais de R$ 458 milhões em multas, outro erro que o governo precisa corrigir. Assim como em fazendas pegas por trabalho escravo, multar quem faz queimadas não tem lógica, pois o lucro dessas pessoas está justamente pelo tempo que cometem crimes sem serem pegas. Isso quando pagam. Acaba que o lucro do desmatamento vira multa e quem faz queimada segue livre, assim como no caso de trabalhos “análogos à escravidão”: a exploração e o não pagamento de salários pagam a multa em caso de flagrante delito. Assim como o PL do Estupro14 e o fim da escala 6×1, prender e confiscar terras — sem indenização — de quem usa a terra para cometer crimes (Marina Silva ameaçou apresentar isso mas voltou atrás) colocaria a opinião pública ao lado do governo e emparedaria ainda mais a direita. Projeto bom é aquele em que o adversário ou é a favor dele ou é contra o povo, contra o país, contra prender quem escraviza no século XXI etc. São aqueles projetos em que, independentemente da tramitação, você já tem ganhos e redireciona parte da opinião pública para os seus interesses.
Reparem que até agora não inventamos a roda, nossas sugestões passam pelo arroz com feijão bem feito. Isso nos leva às duas tragédias do Rio Grande do Sul: a ambiental/social e a eleitoral.
O RS foi mais uma de dezenas de oportunidades perdidas. Aqui, mais uma vez, o governo preferiu trabalhar pela defesa do Arcabouço Fiscal. Usar a dívida do RS para reconstruir o estado levaria à vitória eleitoral de Maria do Rosário (contra o prefeito acusado de ser parte da tragédia) e daria ao PT uma boa chance de retomar o poder no estado 16 anos depois. O Ministro Paulo Pimenta, em entrevista para a GloboNews, tentando explicar o inexplicável, disse que a derrota se deve ao fato de que a estratégia da campanha da Maria do Rosário foi traçada antes da tragédia (?). E desde quando estratégias eleitorais são ideias fixas que não podem ser mudadas? Importante reforçar que esse é o Ministro da Secretaria de Comunicação Social. Seria menos feio o Ministro fazer como fez na mesma entrevista e comemorar a vitória de Sebastião Melo, do MDB, já que para ele as vitórias dos partidos da base foram vitórias governistas. O problema desse tipo de afirmação sem pé nem cabeça é ter que assumir, então, que em São Paulo o governo foi vencedor, ao lado de Bolsonaro, com Ricardo Nunes.
Para quem ficou surpreso pelo fato do prefeito de Porto Alegre ter sido reeleito, basta olhar os números. O governo mente mais uma vez. Não se investiu os R$ 50 bilhões que foram anunciados, o que aconteceu foi uma manobra contábil. O Executivo nacional adiou o recebimento de tributos, antecipou pagamentos de programas sociais e contabilizou como investimento. A prova disso é que a campanha da Maria do Rosário, caso o que anuncia o governo fosse verdade, seria mostrando obras, obras e mais obras. O que não ocorreu. Seria como pegarmos mil reais com um amigo para pagar daqui a três meses, ficar sabendo que ele bateu a moto e enviarmos os mil hoje e sair falando que demos dinheiro ao amigo para ajudá-lo nesse momento de dificuldade. Seria ótimo para nosso amigo hipotético, como foi para quem foi atingido pelas chuvas? Sim, mas são coisas diferentes. Investimento é “dinheiro novo”, como detalha o educador popular Jones Manoel em seu vídeo “O Governo Lula e a tragédia no Rio Grande do Sul: mitos e verdades”15.
Aqui, a tragédia do RS seria o grande trampolim para o governo parar de agir como um agiota em relação aos estados, e usar as dívidas desses entes para tocar projetos que erradicaram as principais mazelas de cada um deles. No caso do RS, toda a dívida do estado deveria ser revertida em um programa com dois eixos centrais: (1) projetos de moradia popular e infraestrutura urbana e (2) iniciativas de recuperação ambiental e sustentabilidade. No setor de moradia o governo deveria fazer um grande projeto para reforma e construção de moradias populares, regularização fundiária e urbanização sustentável. No meio ambiente, o projeto passaria por recuperação ambiental de áreas degradadas, utilização de energias renováveis limpas atreladas às construções e forte investimento em uma agricultura sustentável, empoderando o MST, um dos pilares de sustentação do governo que já vem fazendo críticas à gestão de Lula16.
Segundo o Tesouro Transparente17, os estados e municípios brasileiros devem (números de 2023) R$ 1.322 trilhão à União (34,47% mais que em 2017). Todo esse valor deveria (1) ser corrigido apenas pela inflação e (2) revertido em obras, gerando mudanças reais na vida das pessoas e placas de “Obra do Governo Federal” em cada canto do Brasil. Esse feito seria para Lula como foi a CLT e a Petrobrás para Getúlio Vargas. Estamos tratando aqui, evidentemente, de um projeto de longo prazo, que passaria por um processo mínimo de (1) mapeamento das prioridades regionais e locais, com foco em educação, saúde (obrigando um fortalecimento do SUS), infraestrutura (estradas, ferrovias, saneamento básico, transporte público) e geração de empregos formais; (2) abatimento da dívida atrelada às metas quinquenais e decenais, como indicadores de saneamento básico ou desigualdade social; (3) criação de comitês de fiscalização dando poder a figuras estratégicas da base aliada pensando nas eleições vindouras; e (4) um plano de comunicação ostensivo para colher frutos eleitorais.
Fato é que o PT tomou uma surra na eleição de Porto Alegre, elegeu o prefeito da tragédia e o governador Eduardo Leite, do PSDB, que cortou ou alterou quase 500 pontos do Código Ambiental do RS em 201918, saiu praticamente ileso, com potencial de indicar o próximo governador do Rio Grande do Sul. E é sobre as eleições que trataremos agora.
Os números das eleições 2024 para o PT
O governo Lula tomou uma lavada nas eleições de 2024, apesar do malabarismo petista para dizer o contrário. Os grandes vencedores, como aponta o Poder36019, foram o PSD de Kassab, o MDB de Baleia Rossi e o PL de Valdemar e Bolsonaro. Os grandes vencedores foram a direita e a extrema-direita. Não acreditamos na tese de centro vitorioso pois não existe centro na política. E uma sociedade que tem PSD e MDB no centro diz mais sobre ela do que sobre o real espectro desses partidos.
O PSD foi quem mais elegeu prefeitos (891), sendo (ao lado do MDB) líderes de eleitos em capitais (5). O MDB — e esse para nós é o dado mais importante — é quem mais terá eleitores governados (27,9 milhões), mais vice-prefeitos eleitos (813), mais vereadores eleitos (8.050) e mais votos recebidos para vereadores (11,2 milhões). O PL é o partido que mais elegeu prefeitos no G10320 (16) e mais recebeu votos para prefeitos (15,7 milhões).
Os números do PT são péssimos para o partido que governa o país e pretende se reeleger em 2026. O Partido dos Trabalhadores foi o 9º em eleição de prefeitos (252 contra 625 em 2012), o 7º em eleitores governados (7,6 milhões contra 27 milhões em 2012), o 9º com prefeitos eleitos no G103 (6 contra 28 em 2008 e 18 em 2012), o 6º em votos para prefeitos (8,9 milhões), o 9º em vice-prefeitos eleitos (291 contra 620 em 2012), o 8º em vereadores eleitos (3.116 contra 5.181 em 2012) e 7º com mais votos para vereadores (6,7 milhões). O PT elegeu um prefeito de capital, mas Fortaleza já era de um aliado e não foi uma prefeitura “roubada” da direita. Em 2008 o partido de Lula venceu seis capitais.
O mais assustador de tudo foi a entrevista, já citada, do Ministro Paulo Pimenta para a Globo News21. Ele inicia dizendo que o projeto era “reafirmar a democracia e fortalecer o governo”, portanto “o governo sai fortalecido nesse processo”. E vai além, dizendo que “o grande recado da urna foi a derrota da extrema-direita, pois ninguém duvidou das urnas”. Primeiro que o governo não saiu fortalecido desse processo, como mostramos nos primeiros parágrafos. Segundo que o Ministro ainda está com a cabeça em 2018, época daquela direita caricata, da mamadeira de piroca e do kit gay. Hoje, a extrema-direita é muito mais do que isso. Ela se transformou em uma força política robusta, estruturada em discursos de ódio, negacionismo, e ameaças à democracia, com estratégias muito mais complexas, que vão além da simples negação das urnas.
Paulo Pimenta também comemorou as vitórias de Eduardo Paes (Rio de Janeiro), João Campos (Recife) e Igor Normando (Belém). Será que o Ministro sabe que na capital de Pernambuco o PT encolheu uma cadeira e no Pará duas?
Por fim, Pimenta trouxe para o governo as vitórias do MDB, PSD e até do Republicanos. Disse, e seria difícil acreditar se não fosse gravado, que prefeitos desses partidos têm compromisso com o projeto petista. Era bom o ministro já se preparar, desde já, para a surpresa que terá em 2026 com esses “aliados”. Agora fica uma pergunta: se os partidos que são “da base” ou têm ministérios estão alinhados com o governo, por que o partido reclama da correlação de forças tendo 59 senadores na base e 369 deputados? Na lógica do ministro, são aliados do governo PSD, MDB, União, PRD, PP, Republicanos. Chega a ser cínico.
8 de janeiro, plano para matar Lula-Alckmin e a maior chance que segue sendo perdida
Com o 8 de janeiro de 2023 o governo perdeu a chance de punir, pela primeira vez na nossa história, militares golpistas. De quebra, ainda poderia conduzir uma comunicação e diversas ações contra a extrema-direita. Mas, ao contrário, silenciou, manteve o José Múcio como Ministro da Defesa (mesmo ele tendo dito que tinha amigos nos acampamentos golpistas22) e proibiu que seus ministros se pronunciassem sobre a ditadura de 1964.
E como dizem que o Lula tem sorte quando senta na cadeira presidencial, recentemente saiu a lista dos 37 indiciados pela Polícia Federal por tentativa de golpe e o papel de cada um nas ações23. O que mais chamou atenção na lista não foi o Bolsonaro, líder da organização, mas outro agente político que está há anos nos bastidores da nossa política: Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL).
Valdemar passou a ser alvo da Polícia Federal após o PL (junto com Republicanos e PP) entrar com uma ação no TSE pedindo a anulação de parte dos votos (conveniente) das eleições de 2022. Aqui está o principal: a PF diz que o PL foi usado para financiar a comunicação de supostas fraudes nas urnas eletrônicas, legitimando as manifestações que ocorriam em frente aos quartéis. Valdemar é apontado como responsável por financiar, publicizar e endossar a ação judicial que dava voz a falsos especialistas que alegavam ter provas das fraudes nas urnas. Segundo a PF, o comitê da campanha de Bolsonaro, o “QG do golpe”, alugado pelo PL, foi usado pelos investigados.
Quando saíram as notícias de que o PL estava envolvido, para nós era óbvio que o governo Lula deveria mirar todo seu arsenal nisso. O primeiro passo era convocar, no mesmo dia, as cadeias de rádio e TV, deixar clara a situação a que o país chegou, com militares articulando o assassinato do presidente e do vice eleitos, e anunciar ali mesmo, nas entrelinhas, as três principais táticas do governo: (1) escancarar a verdadeira face da extrema-direita, principal opositora hoje de Lula, e fazer boa parte dessa parcela de eleitores ter vergonha de dizer que pertence a esse grupo, como aconteceu pós redemocratização do país; (2) iniciar uma reforma nunca antes vista em todas as forças armadas, desde a entrada de recrutas, sua profissionalização, divisão pelo território e novas regras de promoção, afastamentos e aposentadoria; e (3) deixar em aberto se o Partido Liberal deveria existir, e deixar os deputados de oposição espernearem após o pronunciamento e pelo tempo que fosse.
Colocar em xeque a existência do PL é o ponto mais importante e o que mais geraria discussões, fazendo com que quem discorda levasse adiante a tese. A linha de comunicação de todo o governo, PT e esquerda deveria ser: “um partido que disputa eleições desde 2006 e recebe dinheiro público não pode trabalhar para extinguir a democracia brasileira”. Por incrível que pareça, essa foi mais uma oportunidade perdida pelo governo e encampada pelo Deputado Federal André Janones24. Qual a lógica? Que conjuntura o PT está analisando e projetando? Não está claro. Essa luta deveria ser a prioridade do partido e do governo, já pensando em 2026. Repetimos: planejaram matar o Lula e nada foi feito a esse respeito como resposta. “Nós não estamos vivendo no mesmo mundo”, para parafrasear o próprio Lula.
Conclusão
Alexandre Vasilenskas25 diz que o PT não disputa a hegemonia da sociedade, mas a hegemonia da esquerda. Temos refletido bastante sobre essa afirmação e ela parece muito real. O governo e sua base trabalham contra aqueles que os alertam sobre os perigos pelo caminho que o governo está seguindo.
Para ficar clara a confusão em que Lula se meteu, o governo enviou um projeto de direita (PL 4614/2024) para um Congresso de direita, que está fazendo chantagem e pedindo mais emendas em troca da aprovação antes do recesso parlamentar. Um projeto que corta direitos, como é o caso do BPC que já atingiu mais de 300 mil pessoas. Haddad escreveu um projeto para agradar os especuladores e, ainda assim, o mercado não ficou satisfeito com a sanha em tirar comida e remédio de pessoas miseráveis.
David Deccache26, em excelente artigo para a Revista Movimento, prova por a+b que o governo vem tomando medidas que impactam negativamente a vida de minorias sociais e dificulta possíveis enfrentamentos aos “desafios como a crise climática, a defesa da reforma agrária e urbana, ou a reversão das privatizações”.
Líderes se esquecem do poder que possuem em suas mãos. Hoje é uma canetada, daqui seis meses é um prato de comida que deixa de existir para uma família, daqui um ano é uma pessoa que perde a saúde, o teto, a esperança e se joga de corpo, alma, coração e mente no colo da extrema-direita, o bastião das soluções simples para problemas complexos.
O governo ainda pode dar uma guinada, um giro de 180º, encontrar aquele drible que ninguém está vendo e mostrar onde está a esquerda nesta frente ampla. Mas caso contrário, se continuar trilhando nesse caminho, a esquerda já deve começar a pensar não no nome para 2026, mas no candidato para 2030.
Notas de rodapé
- Os erros de comunicação do governo Lula https://marketingpolitico.blog.br/2023/12/24/os-erros-de-comunicacao-do-governo-lula/ ↩︎
- Datafolha: Lula é aprovado por 36% e reprovado por 32% https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/10/11/datafolha-lula-e-aprovado-por-36percent-e-reprovado-por-32percent.ghtml ↩︎
- Pesquisa CNT de Opinião – 162ª edição https://cnt.org.br/documento/a37a2d12-e901-4cde-978a-ab5aeebc5fd4 ↩︎
- Leia aqui https://media-cms-site.genialinvestimentos.com.br/wp-content/uploads/2024/12/11013519/GENIALQUAEST10DEZ24-1.pdf ↩︎
- Proporção de famílias endividadas sobe a 78,8%, maior nível desde novembro de 2022 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/financas/proporcao-de-familias-endividadas-sobe-a-788-maior-nivel-desde-novembro-de-2022/ ↩︎
- Lula diz que Silvio Santos teve ‘medo de ser preso’ pelo caso Panamericano https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2024/08/18/lula-diz-que-silvio-santos-tinha-medo-de-ser-preso-por-caso-panamericano.htm ↩︎
- Trabalhadores autônomos: quem são e o que pensam https://blogdoibre.fgv.br/posts/trabalhadores-autonomos-quem-sao-e-o-que-pensam ↩︎
- A mentira do pleno emprego no Brasil https://www.youtube.com/watch?v=zFxFN_P1fWw ↩︎
- Fim da escala 6×1: Quais trabalhadores seriam os mais beneficiados? https://veja.abril.com.br/brasil/fim-da-escala-6×1-quais-trabalhadores-seriam-os-mais-beneficiados ↩︎
- Manifestantes protestam em shopping de Salvador pelo fim da escala 6×1 https://www.correio24horas.com.br/minha-bahia/manifestantes-protestam-em-shopping-de-salvador-pelo-fim-da-escala-6×1-1124 ↩︎
- Mais da metade das obras públicas no Brasil estão paralisadas, diz TCU https://www.poder360.com.br/poder-infra/mais-da-metade-das-obras-publicas-no-brasil-estao-paralisadas-diz-tcu/ ↩︎
- Área afetada por queimadas no Brasil neste ano foi 150% maior do que em 2023, diz MapBiomas https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/area-afetada-por-queimadas-no-brasil-neste-ano-foi-150-maior-do-que-em-2023-diz-mapbiomas/ ↩︎
- O Futuro #3 https://drive.google.com/file/d/1w-kiMKJGmpQfEDdyCdxcrRaW8hMFJQgS/view ↩︎
- OAB diz que PL do aborto é flagrantemente inconstitucional e atroz https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-06/oab-diz-que-pl-do-aborto-e-flagrantemente-inconstitucional-e-atroz ↩︎
- O Governo Lula e a tragédia no Rio Grande do Sul: mitos e verdades https://www.youtube.com/watch?v=xCPMTndlHMg ↩︎
- Veja aqui https://www.brasildefato.com.br/2024/12/07/na-presenca-de-ministros-mst-critica-paralisia-da-reforma-agraria-no-governo-lula e aqui https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/11/25/mst-ve-falta-de-compromisso-com-assentamentos-e-cobra-demissao-de-ministro.ghtml ↩︎
- Visão Integrada das Dívidas da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios https://www.tesourotransparente.gov.br/historias/visao-integrada-das-dividas-da-uniao-dos-estados-do-distrito-federal-e-dos-municipios ↩︎
- Eduardo Leite cortou ou alterou quase 500 pontos do Código Ambiental do RS em 2019 https://www.brasildefato.com.br/2024/05/04/eduardo-leite-cortou-ou-alterou-quase-500-pontos-do-codigo-ambiental-do-rs-em-2019 ↩︎
- Quem venceu em 2024: mais votos, prefeitos e eleitores governados https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/quem-venceu-em-2024-mais-votos-prefeitos-e-eleitores-governados/ ↩︎
- Grupo das 103 cidades com mais de 200 mil eleitores no Brasil, ou seja, que possuem segundo turno. ↩︎
- Ministro Paulo Pimenta concede entrevista à GloboNews https://www.youtube.com/watch?v=74W6UIsMySg ↩︎
- Múcio diz que tem amigos em acampamento: ‘É manifestação democrática’ https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2023/01/02/mucio-diz-que-tinha-amigos-em-acampamento-e-manifestacao-democratica.htm ↩︎
- Bolsonaro, Braga Netto, Augusto Heleno e Ramagem: os indiciados pela PF por tentativa de golpe e o papel de cada um https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/11/21/bolsonaro-braga-netto-augusto-heleno-os-indiciados-pela-pf-por-tentativa-de-golpe-de-estado-e-o-papel-de-cada-um.ghtml ↩︎
- Veja aqui https://x.com/rodolphodalmo/status/1863966824607432967 ↩︎
- Psicólogo, mestre e doutor em saúde coletiva e conselheiro do CRP05. ↩︎
- Governo Lula 3: continuidade ou ruptura? https://movimentorevista.com.br/2024/11/governo-lula-3-continuidade-ou-ruptura/ ↩︎
Um agradecimento especial a Camila Félix Teixeira e Júlio Soares, pela leitura e pela atenção de sempre.
Revisado e atualizado em 13/03/2026