A proposta de Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, de criar um selo oficial de “acurácia eleitoral” para institutos de pesquisa parte de uma premissa errada: pesquisa eleitoral não existe para prever o futuro. Pesquisa mede, dentro de determinada metodologia, a intenção de voto em um momento específico.
Intenção de voto não é voto. Eleição não é fotografia congelada. Tudo pode mudar da noite pro dia: a cabeça do eleitor, as campanhas, fatos políticos, temperatura, dinheiro, máquina, território, militância, abstenção, rejeição, voto útil etc.
Esse tipo de medida alimenta a falsa ideia de que pesquisa boa é a que acerta a eleição. Não é. Pesquisa boa é a que informa corretamente o que mediu, no momento em que mediu, com método transparente e limites bem apresentados.
Kassio Nunes Marques deveria saber que a Justiça Eleitoral não combate desinformação criando um selo que, na prática, estimula uma leitura desinformada sobre pesquisas. O papel do TSE deveria ser garantir transparência, regras claras e fiscalização adequada.
Isso não significa blindar os institutos de pesquisa. Pelo contrário. Pesquisas precisam ser cobradas desde a metodologia, passando pela amostra até a divulgação. Bem diferente de uma premiação estatal para quem “chegou mais perto” do resultado final.
Quem trabalha com política sabe: pesquisa não substitui conjuntura, território, organização, campanha e voto. Ela é ferramenta. Importante, mas ferramenta e nada mais.