As novas táticas do PT para tentar reverter o cenário eleitoral

O risco não é apenas perder o debate, mas permitir que ele seja definido — e vencido — nos termos dos adversários.

Os comentários a seguir partem da leitura da reportagem “PT vê erro de comunicação e reposiciona estratégia contra Flávio”, de Lara Brito, publicada no Poder360.

A autocrítica do PT sobre sua estratégia de comunicação chega atrasada. A tentativa de reposicionar o discurso com base na comparação entre os governos Lula e Bolsonaro parte de um diagnóstico correto — houve falha na comunicação —, mas aponta para uma solução que já perdeu eficácia. Em 2026, não mobiliza mais.

As pessoas não vivem suas vidas com base em séries históricas de números crus. O grosso do eleitorado não avalia governos com base em indicadores acumulados, mas na experiência cotidiana: preço dos alimentos, renda, sensação de estabilidade e perspectiva da melhora de vida. Dizer para os brasileiros — aos 48 do segundo tempo — que suas vidas estão ruins hoje porque Lula herdou uma “tragédia econômica” em 2023 é uma estratégia que nasce fracassada.

Em outubro, o que estará em julgamento são os quatro anos do governo Lula. Há demanda por mudança, não por desculpas. O próprio Flávio Bolsonaro já se coloca como um “Bolsonaro moderado”, se vacinando contra esse tipo de ataque.

O avanço de Flávio nas pesquisas, confirmado pelo Datafolha, é a consolidação de uma tendência. O desgaste do governo já vinha se acumulando, e os dados capturam esse movimento.

Narrativa sem disputa ideológica

A ideia de transformar a eleição em uma disputa sobre as condições herdadas pelo governo esbarra em uma contradição estrutural: o governo não faz disputa ideológica de forma consistente. Ao delegar esse papel apenas ao partido ou alguns movimentos sociais, cria uma dissociação entre ação institucional e discurso. Isso enfraquece a capacidade de sustentar uma tática coerente ao longo do tempo.

Temas como precatórios ou condução fiscal do governo anterior exemplificam esse problema. Ainda que relevantes do ponto de vista técnico, não produzem efeito direto na vida das pessoas e, portanto, têm baixo potencial de mobilização eleitoral. Segundo o próprio governo, 250,6 mil brasileiros apresentaram precatórios entre 3 de abril de 2023 e 2 de abril de 2024.

O mesmo vale para a crítica às privatizações. Há base material para o argumento, especialmente no setor energético, mas ele perde força quando confrontado com promessas não cumpridas pelo próprio governo, frequentemente justificadas pela correlação de forças. Isso fragiliza a credibilidade do discurso. O caso mais emblemático é o da Eletrobras (agora AXIA Energia), em cujo conselho, após muita negociação, o governo conseguiu apenas 3 das 10 cadeiras.

As frentes de atuação e seus limites

Para tentar frear o avanço de Flávio nas pesquisas, o PT vai estruturar sua comunicação (nas inserções de rádio e TV que começam a ser exibidas a partir de 23 de abril) em seis eixos que revelam uma tentativa de organizar o discurso.

1. A comparação de políticas públicas entre os períodos 2019–2022 e 2023–2026 tende a ter baixo impacto, como já detalhamos nas primeiras linhas do texto.

2. A ênfase na reconstrução e na recriação de programas sociais pode ter algum efeito, mas exige blindagem. Medidas como o PL 4.614/2024, que afetava beneficiários do BPC, ou a fila de quase 3 milhões de pessoas no INSS fragilizam esse discurso e oferecem munição direta para o adversário.

3. A politização da agenda econômica é o ponto mais consistente da estratégia. O enquadramento em termos de “soberania vs. entreguismo” tem potencial mobilizador, especialmente em um contexto internacional mais tensionado. Já a oposição entre “distribuição de renda vs. concentração” pode funcionar, com menor intensidade a depender da tradução para a vida concreta.

4. A incorporação da segurança pública como eixo enfrenta um problema clássico: o descompasso entre tempo político e tempo real. Soluções estruturais são de longo prazo, enquanto o eleitor responde a percepções imediatas. Sem uma tradução simples e direta, o tema tende a ter pouco impacto e o governo ainda corre o risco de aproximar seu discurso do de seus adversários.

5. Já a ampliação da atuação digital aparece como diretriz genérica. Sem definição clara de estratégia, segmentação clara, corre o risco de se tornar apenas um enunciado vazio.

6. As novas bandeiras sociais, especialmente o fim da escala 6×1 e a redução da jornada, apontam para um caminho mais promissor e constituem a principal arma do governo. Trata-se de uma agenda que oferece um horizonte tangível de mudança, com possibilidade de implementação rápida após as eleições. O governo acerta ainda mais em associar a redução da jornada ao alívio da dupla jornada feminina, parcela do eleitorado que vem retirando seu apoio ao governo.

O risco de errar o alvo

A estratégia de atacar Flávio Bolsonaro por casos de corrupção, como as “rachadinhas”, também apresenta limitações. Trata-se de um tema amplamente conhecido, que dificilmente altera percepções já consolidadas. Em alguns casos, decisões judiciais favoráveis ao senador reduzem ainda mais o potencial de dano. Além disso, esse tipo de ataque pode reforçar a coesão da base adversária. Vale lembrar que em 2018 nada de “ruim” “colava” no Bolsonaro pai, no chamado “efeito Teflon”.

A aposta de que apenas o sobrenome Bolsonaro carregaria rejeição suficiente para definir a eleição parece superestimada. O que estamos vendo é um poder de transferência de votos poucas vezes visto. Para um eleitor sem perspectiva concreta de melhora no curto prazo, a ideia de uma nova “virada de mesa”, elegendo alguém que novamente só tem como promessa “acabar com tudo isso que está aí” pode funcionar como válvula de escape momentânea.

A última Datafolha mostra que pouco importa quem será o adversário de Lula. Flávio Bolsonaro já aparece à frente de Lula no 2º turno, mas o alerta real está no desempenho de Ronaldo Caiado e Romeu Zema. O goiano e o mineiro saltam de 5% e 4%, respectivamente, no 1º turno para 42% em um eventual 2º turno com Lula, empatados na margem de erro.

Nesse contexto, o centro da disputa não será — nem deveria ser — o passado da família Bolsonaro, mas o futuro que um 4º governo Lula poderia entregar.

O hoje e o amanhã

O reposicionamento do PT reconhece problemas reais, mas ainda opera com alguns instrumentos desgastados. Em 2022, muitas pessoas votaram no Lula pela lembrança dos seus mandatos; em 2026, a tendência é que a eleição seja menos sobre memória e mais sobre expectativa.

Os elementos com maior potencial são aqueles que conseguem conectar projeto político e impacto concreto: soberania nacional, reorganização da economia em termos distributivos e propostas que alterem a vida no curto prazo. São esses eixos que permitem transformar expectativa em perspectiva real. O restante cumpre função complementar ou dispersa energia em terreno improdutivo. O governo não tem em seu horizonte nenhuma tática que abra os cofres, como o aumento do salário mínimo ou dos programas sociais.

Antes de vencer um adversário, uma vitória eleitoral passa por definir qual tema pauta o debate. O problema central do governo não é apenas de comunicação, mas de posição política. Ao evitar assumir plenamente o custo do presente, abre espaço para que o adversário se apresente como alternativa viável. Em campanhas de reeleição, o vazio de expectativa não fica em aberto. Quem está de fora pode prometer sem se desgastar. Nesse sentido, o risco para o governo não é apenas perder o debate, mas permitir que ele seja definido — e vencido — nos termos dos adversários.

Revisado e atualizado em 05/10/2026

Foto de Rodolpho Dalmo

Rodolpho Dalmo

é estrategista político com 12 anos de experiência em política, eleições e governos.

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